Amor, surrealismo e mais nada

(o coração tem mais quartos que uma pensão de putas)

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Pensamento solto de madrugada

Preciso de Ana Cristina César.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Você tem que entender que eu sou filho único

Já me doí muito por ser filha única. Lembro que pedia chorando pra minha mãe ter mais um filho, peloamordedeus. A dor passou depois dos 7 anos, a tal primeira infância, responsável por todas as merdas que ficam na nossa cabeça pela vida toda. 
Agora, adulta, me encontro de novo com aquela menina magricela de cabelos armados da cidade pequena, a menina de sete anos. Me encontro com a gata Nick que morreu no parto, com o Pitt que tinha acabado de chegar naquela época, com o cheiro da caixa econômica, onde minha mãe trabalhava, e que até hoje me faz sentir saudade de alguma coisa que eu nem sei direito. Café, chá mate sem açúcar, papel.
(Fomos sempre eu e você, mãe.) 
Está aí a grande verdade: ainda durmo no ombro, ainda estou agarrada ao seio, sugando amor & cuidado da única pessoa que não precisa dizer uma palavra, não, não precisa dizer, nem fazer nada. A única pessoa que me faz sentir um amor bonito, pleno, mas que dói sem parar. Amor-mãe, amor de útero pra útero. 
E de repente, num tempo tão rápido que eu mal percebi, eu cresci. E crescer dói. Olhar pra isso tudo em volta e ver que eu quero tão mais, que preciso de tão mais. E que esse tão-mais não inclui o ventre materno.
Como naquele trecho de autor desconhecido em O ovo apunhalado, eu quero a doçura do verbo viver. E não vejo a hora de abrir portas e janelas de um lugar que não é aqui, de experimentar o gosto de um café que não é dessa cidade, de dormir em um colchão que não é o meu. 
(Tenho tanta fome de mundo, mãe. Fome de ir em direção a mim mesma. Travessia.)
Mas você tem que entender que eu sou filho único.  E filhos únicos são seres infelizes.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Crônica de uma vida anunciada

Vendo-a assim, dentro do marco idílico da janela, não quis acreditar que aquela mulher fosse quem eu pensava, porque me recusava a admitir que a vida acabasse por se parecer tanto à má literatura. (García Márquez  em Crônica de uma morte anunciada – p. 131)


A grande verdade é que viver é um saco. Estou no ápice do meu inferno astral e, principalmente nessa época, queria não acreditar em astrologia. Mas acredito. E parece que quanto mais se acredita mas ele bate. Bateu por aqui. Mas já havia batido antes, bem antes da fatídica faixa da desgraça emocional do mês antes do aniversário. 
É engraçado fazer um flashback do que eu quis ser em vários períodos da minha vida. Já quis ser astronauta quando era criança, arquiteta na pré adolescência, psicóloga na adolescência e quando a enxurrada de hormônios deu um tempo, soube que eu ia querer escrever pelo resto da minha vida. Calhou então de fazer jornalismo e as Letras vieram quase que por acaso. Hoje, na noite anterior à entrega de um dos tão almejados canudos que anunciam o começo do fim das barras da saia de mãe, não sinto a mínima vontade hollywoodiana de jogar o capelo, aquele chapéu bizarro, pra cima. Não existe câmera lenta e provavelmente nem existirá um discurso bonito. Só longas horas de uma espera que foi tão grande mas que quando chegou não sei bem o que quer dizer. Querendo ser Truman Capote mas sendo o Dan de Closer, escrevendo obituários. Ou nem isso.
A verdade é que viver dói pra caralho. E o uso do palavrão é útil porque parece fazer sossegar um pouco o coração que anda afoito pra comer o mundo. Não sei onde colocar as mãos, preciso de um cigarro na mão esquerda e de alguém pra segurar a mão direita. Leio sites inúteis, brinco com o gato, choro vendo filmes, nenhum livro parece ser o suficiente. Vivo apesar de. E eu, defensora maior desse "apesar de" que sempre me empurra pra frente e me faz conseguir enxergar o doce no amargo, tenho me contentado dia a dia com um ranço que nunca me pertenceu. Inquieta, burra, personagem secundário de um livro ruim. Só não uso o adjetivo "infeliz" pra não parecer drástica demais, perdida nesse universo de realidade e drama. Mas sim, talvez infeliz. Insatisfação pura, sem gelo. Bebendo em tragos rápidos, pra não sentir demais o que desce raspando goela abaixo.
O nó na garganta, que antes se resumia a amores mal vividos, agora se resume a uma crônica de uma vida anunciada que não está parecendo nada amigável. 
Não existe amor em SP, meus caros. A má notícia é: nem em nenhum outro lugar.

domingo, 25 de dezembro de 2011

De dentro do ser-tão ou Você tem que ler Grande Sertão: Veredas

"Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas - mas que elas vão sempre mudando. Afinam e desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou." (p. 39)



Chega essas época do ano e eu vou me desencantando. Quero abrir as gavetas, jogar foras bilhetes, relembrar cartas de amor cuja validade já venceu faz tempo. Nessas idas e vindas desse ano maluco e bizarro que foi 2011, deixei de ler muita coisa que eu queria, escrevi uma monografia que me fez descobrir cantos de mim mesma que eu antes desconhecia, descontei o aperto no peito em cigarros comprados soltos, que é para o vício nunca chegar por aqui. Perdi um cachorro e ganhei um gato, nem mal me formei e já estou desempregada. Coisas da vida real. 
A questão é que a essa hora de um domingo natalino que tem sempre um gosto que eu não suporto - as bolas vermelhas penduradas em árvores de natal de mentira não soam artificiais pra você? - resolvi colocar em dia as frases selecionadas nos livros que eu li esse ano. Quando eu era mais nova e o tempo parecia render um pouco mais, terminava de ler e já corria escrever os trechos em um documento do word que carrego comigo desde 2000. Esse ano, só agora tive coragem de puxar os livros da estante e ir pescando, página por página, as frases que fizeram sentido durantes a leitura. De García Márquez a livros infantis que li para a disciplina de literatura infanto-juvenil, parei em Grande Sertão: Veredas. Só esse nome me estremece. Grande ser-tão: Veredas. Mal começo a falar sobre ele e já sinto uma bola se formando na minha garganta. Uma bola Guimarães Rosa, que não é palavra-dita mas pulsa feito sentimento vivo, neologismo do coração.
Você tem que ler Grande Sertão: Veredas. É tudo o que consigo dizer. Antes dele, eu nutria um preconceito imenso por Guimarães Rosa porque julgava que histórias de jagunços não eram pra mim. E não são, de fato. Mas Grande Sertão é muito mais que isso. Ouso dizer que é a mais bela história de amor que eu já li até hoje e acho que dificilmente lerei algo tão intenso e  comovente como esse romance vai e vem, que constrói e desconstrói os caminhos de ser-tão e às vezes não saber pra onde ir. Travessia.
Você tem que ler Grande Sertão: Veredas. Esqueça o que te foi dito na escola, se estudar literatura, ignore as aulas sobre ele. Só leia e sinta. Deixe Riobaldo contar a história que nunca na vida alguém vai conseguir contar parecida. Esqueça o marco-na-literatura-brasileira que isso tudo são coisas que inventam pra gente entender o que é inteligível: lembre, diga, o sertão é dentro da gente.

sábado, 10 de dezembro de 2011

Quando você vai embora

Quando você vai embora, pressinto acidentes fatais, doenças terríveis, mal súbitos. Tudo pra sofrer mais a sua partida, a minha estadia solitária. Meu coração ora parece querer pular do peito, ora desacelera em uma clara tentativa de também sentir dor. Toda a cidade parece querer colaborar com o quadro preto & branco que vou pintando por dentro. Choveu um pouco à noite, uma garoa fina, meio lacrimal. Antes disso, o céu claríssimo insistia em continuar claro eternamente só pra fazer com que nosso programinha filme-no-escuro não acontecesse logo. Quando você vai embora, o cinema francês fica mais triste ainda e eu fico mais neurótica por não entender direito o que os personagens dizem. E você me olha e ri, que sou boba e que tudo bem não entender francês direito. Mas não, não está tudo bem, porque você vai embora.
Quando você vai embora, choro pelo tempo junto, pelo segundo que os corpos se distanciam no sono, pela sua sobrancelha tão bonita que se arca de um jeito diferente quando você dorme. Choro pelo seu olhar de menino, pelo seu sorriso doce, pela sua carência que é tão a mesma que a minha.
Quando você vai embora, dramatizo a realidade e viro novamente a menina que eu costumava ser quando amava aos 14 anos. Maldigo Deus e o mundo, peço abraço de mãe e, assim que chego em casa para passar o primeiro sábado que eu não irei pra sua casa depois de sair da aula de francês, fico abraçada com o meu gato como se ele fosse o Nounouse do Para uma menina com uma flor.
Quando você vai embora, encarno Vinicius e fico mais bossa nova do que um disco inteirinho do João Gilberto. Também não tomo café da manhã, não atendo telefones, não me olho no espelho. A única coisa que faço é pensar que sim, você foi embora.
Quando você vai embora, apago o passado, esqueço as falhas, te amo inteira de novo. Quando você vai embora, o amor não se acostuma mais com o tempo. Quando você vai embora sou a própria felicidade clandestina e, por alguma razão que nunca vou saber ao certo, passo a te amar ainda mais, muito mais ainda, quando você vai embora.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Das coisas que eu não entendo ou o mundo-umbigo

Existem coisas das quais eu não entendo. Ou que até entendo, mas queria não entender pra disfarçar o quão a existência é burra e vazia de vez em quando.
O fato é que eu tinha um blog de moda há meses atrás e ok, tudo bem. Era um blog de moda, mas não era só isso - ou pelo menos tentava fazer com que ele não fosse apenas isso. Como jornalista que finalmente posso dizer que sou, fazia dele um exercício diário de pesquisa de pautas, reflexões do quanto aquilo seria ou não relevante para o público leitor e passava horas e horas tentando escrever coisas bacanas, fazendo montagens e procurando material pra deixar aquele espaço o mais democrático, útil e informativo possível. Quando vemos um blog como um veículo de informação passível de gerar renda e influenciar pessoas, penso que o mínimo que pode ser feito é publicar conteúdos que tenham muito a ver com essas três coisas que citei anteriormente.
Se você, leitor, está ao menos um pouco familiarizado com os blogs de moda que estão por aí - e nem preciso citar nomes, porque são muitos do mesmo - já deve saber que informação relevante e útil está bem em falta. Mas o que me preocupa é a tentativa obsessiva em vender uma vida perfeita. Sim. Blog is the new comercial de margarina, meus amigos. E, como disse Fernanda Young em uma entrevista recente, assim como acontece no facebook, os blogs de moda nos apresentam personagens que têm mais roupas que você, falam mais línguas que você, foram pra mais países que você, são mais ricos que você e citam mais Nietzsche que você. Tá, as blogueiras não citam Nietzsche. Mas vocês entenderam o ponto.
A exposição da intimidade é tão absurda que o blog de moda é apenas um jeito de chamar essa coisa que mais parece um blog de ego. Essa coisa em que o que vale mais não é dizer, mas mostrar-se (e muito!). Afinal, quem precisa saber escrever quando se tem um closet (ninguém mais tem guarda-roupa, só closet agora, reparem!) bem cheio, não é mesmo?  É engraçado como costumam ignorar o quanto a moda pode ser interessante se vista por outros ângulos e de outras formas não óbvias, o quanto ela é cultura e comportamento e não só consumo desenfreado e olha-só-que-lindo-meu-sapato-novo, minha-bolsa-nova, meu-corpo-novo, ou olha-o-carro-que-eu-ganhei-e-vale-mais-que-todos-os-órgãos-da-sua-família-juntos.
E é claro que uma pessoa minimamente madura consegue ler e descartar aquilo que julga não ser interessante. Ter aquele sentimento de: cêjura que é isso mesmo? e pronto, acabou. Mas fico pensando nessas menininhas, que têm essas blogueiras como o maior modelo de perfeição e felicidade já existentes na vida, que querem saber qual calcinha as blogueiras vestem, em que bairro elas moram, qual restaurante frequentam e qual prato comem. Querem ser, assim como elas são ou se mostram ser, meninas de plástico vivendo vidas plastificadas, líquidas, efêmeras. Essas meninas que acham tudo bem participar de uma promoção da Marisa em que a blogueira ganha uma viagem para o destino que escolher e a leitora ganha... R$ 100 em compras. CEM REAIS!
E eu sei que o mundo tá uma merda mesmo, que os valores estão invertidos, que grande parte das pessoas quer é se alimentar de egos e intimidades alheias postos em cima da mesa. Eu sei. Mas só não consigo entender essa histeria coletiva que me soa cada vez mais com uma carência absurda e um desejo louco de ser amada por tudo e por todos. Simplesmente não consigo entender. E nem quero - ainda bem.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Isso não é literatura

(para se ler ao som de Se puder sem medo , de Oswaldo Montenegro)

Mas é isso. É Oswaldo. É uma grande merda, na verdade, mas é lindo ao mesmo tempo. Porque tudo é de um destino muito certo-incerto.
Todos nós, perdidos em cima de tantos corpos, temos tudo pra dar errado. É quase como se o “nós” nunca pudesse terminar uma frase sem se quebrar em mil partes.
Somos frágeis.  Nos perdemos no meio de tanta sede, tanta insatisfação.
A vida, os filhos, a rotina, a falta de vontade, o cansaço, o trabalho, a falta de sintonia.
Nada me parece tão triste do que casais que não se falam e nem se olham nas mesas de restaurantes. E eles existem aos montes, pra esfregar na cara dos casais-ainda-felizes, brincando de mostrar a comida já mastigada pro outro ou tentando colar o a colher no nariz, que é esse o destino deles. Um vazio gigante e profundo do lado de alguém que um dia você chamou de “amor”.
Tudo colabora pra fazer dar errado.
Mas alguma coisa, em algum lugar, faz com que as pessoas – e são poucas! - queiram tentar. E construam de novo e de novo e assim pra sempre,  por toda manhã. É preciso aprender a desapaixonar e se apaixonar novamente. As relações são cheias de contradições. Não existe plenitude sem a consciência da ausência.
Porque é isso, construir toda manhã: fazer apaixonar toda manhã. E isso não envolve necessariamente cafés na cama ou flores esparramadas pelo quarto, inclusive tenho a teoria que são os babacas os mais aptos a fazer agrados desse tipo. Quando digo fazer apaixonar pela manhã, falo de uma dança inconsciente de pés se acariciando por debaixo dos lençóis cheirando a dois corpos. Falo de respiração na nuca, de beijo no olho, de encostar a cabeça no peito do outro pra ouvir as batidas do coração pelo simples fato de precisar de alguma prova real de existência. Uma epifania, que abre o olhar de cada um pra enxergar a manhã como uma possibilidade e não como uma obrigação. E a possibilidade do amor é doce.
E é dificílimo. Eu olho pras pessoas e algumas são péssimas juntas. Tem-se   preguiça um do outro. Simplesmente não fazem mais questão. Porque, como já percebi na minha primeira decepção amorosa, lá pelos 7 anos quando o menino do qual eu gostava foi morar na Tailândia com a família, só o amor não é o suficiente.
Nunca foi.
E é horrível de saber, mas, de alguma forma, é bonito de viver. Porque o agora, as pequenas coisas, são tudo o que a gente tem. E essas coisas ficam esquecidas, se perdem em coisas chatas, que deveriam ser menos importantes.
Mas enquanto elas ainda existirem – as pequenas coisas – há razão pra se tentar. Pra mim, isso é que deveria se chamar “amor”.

(escrito no começo do ano, mas nunca fez tanto sentido quanto agora)