Mostrando postagens com marcador escritos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador escritos. Mostrar todas as postagens

Travessia para fora, travessia para dentro



Demorei 28 anos para conseguir me entender com a solidão.
Penso isso enquanto leio O ano em que morri em Nova York. Nele, a narradora conta que, quando era pequena e dormia fora de casa, era acometida por uma sensação de angústia tão forte que precisava ligar para a mãe ir buscá-la. Eu era exatamente essa criança.
Entre todas as pessoas amadas, só uma tinha o poder de reorganizar o meu mundo, que se desorganizava muito fácil. Não é a minha cama, não é a minha casa, não é o meu pijama, não é o meu leite com café na mamadeira. Tudo isso e mais o resto que eu inventava queriam dizer só uma coisa: não é a minha mãe.
Pior do que no romance, eu cheguei a fazer o meu pai dirigir 550 km na véspera de Natal, num bate e volta para chegar a tempo para a ceia, só para me trazer até minha mãe, para minha cidade, para minha família quebrada, mas mesmo assim tão minha. Lembro de chegar e dizer, talvez pela primeira vez, o quanto eu amava a minha avó materna e o quanto eu tive saudades dela nessas pouco mais de 24 horas em que eu estive fora.  Ela não era dos arroubos de demonstração de afeto e eu, mesmo sem querer, seguia essa regra muda à risca. Nesse dia, achei que era uma bom momento para quebrá-la.
Meus sintomas longe da minha mãe eram o que talvez hoje chamem de uma crise de ansiedade. Falta de ar, dor no peito, choro compulsivo. Eu não queria nada. Nem praia, nem Natal, nem a outra avó, nem uma família gigante. Eu queria ela.
“Voltei à cena corriqueira da infância, quando tentava dormir fora de casa, me sentia sozinha e ligava para ela me buscar. A sensação de aconchego que experimentava ao vê-la chegar e saber que ela me levava de volta para casa é aquela que ainda persigo”, Milly Lacombe escreve em seu livro.
Eu não teria escrito diferente.
 Weronika Anna Marianna 
A minha mãe era a minha não solidão; minha eternidade. Uma espécie de deusa viva que não morreria nunca. E eu tinha certeza disso, mas, por via das dúvidas, em um dia que ela me deixou mais tempo que de costume no carro para ir ao mercado, o que me causou uma sensação de que não era possível viver tantos minutos assim sem a sua presença, pedi a Deus para que, por favor, eu morresse antes dela. Eu tinha seis anos.
Essa travessia para longe de suas trompas, de seus ovários, de cada pedaço de útero que ainda existe e que algum dia já fora minha casa, foi travada a duras penas em uma guerra de quartos, camas e porta-retratos.
Eu sentia que era preciso ir para longe, muito longe, para conseguir existir sem os olhos dela. Aqueles olhos tristes que herdei. Caso contrário, eu falharia. E, já adulta, ligaria no meio da noite, pedindo socorro, correndo para sua cama com medo de fantasmas, monstros inventados, números repetidos. Ela então me socorreria e ficaria tudo bem. Até que eu precisasse novamente de socorro no outro dia e no outro e também em mais um. E em todos eles ela estaria ali.
Demorei 28 anos para conseguir me entender com a solidão e quando parei de olhar para ela e olhei para mim, vi que que não estava sozinha.
Mãe é mar.
E o que eu julguei mar aberto, ameaça mortal quando eu ousasse sair da margem, era areia firme se eu parasse de me debater e só pisasse com meus próprios pés.
Aquele território lamacento e úmido, quente e protegido, sem o qual eu não conseguia respirar, na verdade era o mangue com o qual eu me nutri por todos esses anos para descobrir no meio do caminho que andando de lado também se vai longe.
Às custas de um diário de 1999, dezessete caderninhos, anotações no bloco de notas do celular, lembretes no canto da agenda e quatro anos de análise lacaniana, construí meu próprio barco para descobrir depois de pronto que a terra firme já era ali.
Precisei que morresse em mim a mãe que eu criei para que pudesse nascer uma mãe humana, falha, mortal; para que eu também pudesse experimentar a minha humanidade, as minhas falhas, os meus lutos.
Nessa travessia além útero, descobri que precisei desconstruir certezas para entender que sina é desejo e nada mais.
Da necessidade do outro, me fiz e me atravessei.
Construí um teto todo meu no pequeno apartamento e construiria outros mil tetos em qualquer lugar em que eu pudesse ser.
Entre as minhas paredes, descobri que gosto da minha própria companhia, que é bom ficar um pouco em silêncio, que o cheiro do incenso de lavanda é o meu preferido, que sei cozinhar coisas deliciosas, que adoro lavar roupas, que cuido bem de plantas (mas as avencas ainda são um desafio), que colocar luzinhas em cada canto me dão a impressão de que moro com as estrelas e que não sou tão angustiada quanto fantasiei que eu era. Entre as minhas paredes, prometi para mim que não há lugar, físico ou subjetivo, que eu me diminua para me fazer caber.
Tive que ficar sozinha e me entender sozinha, fazer as pazes com o tempo, com os ciclos e com as faltas para aprender que o meu desejo é ser eu para poder também ser o outro. Ser com o outro.
Nós somos a partir daqueles que foram antes de nós. Nós existimos a partir do outro.
Depois de tanto girar, nessa ciranda, gosto mesmo é de ficar de mãos dadas.
Porque quero, não porque preciso.
Sou dada à companhia, ao afeto, à memória, aos assuntos do coração, às amizades, aos bilhetes, às cartas de amor.
Saturno já deu a sua primeira volta e foi preciso olhar de perto as cicatrizes para reaprender a amar e ser amada.
Quase dói, mas é também bonito.
E sei que, nesse teto ou em outro,
Aqui,
Comigo
ou com você,
Não importa:
Estou em casa.
Lady Bird

Enquanto você dança

Há que se manter mesmo
certo mistério com os encontros

Alguma vergonha de pele
fruta visguenta escorrendo
talvez certa vontade de te chamar pelo meu nome

Tudo vira dia
quando somos eu e você

E não sei onde você começa
e onde eu termino
enquanto encaro nossas coxas
no lençol algum dia bem passado

Na sua arqueologia
descubro o passo sob o rio que não conheço
tateio o coração do mundo com os dedos dos pés

Não tenho medo
não precisa perguntar

Enquanto você dança
fugi da borda
dei a volta ao mundo
pulei de cabeça

Que desperdício forçar a si mesmo
a não sentir

Cedo aprendi: bom mesmo é dar a alma como lavada.

Faça coisas com a sua dor

Elfride Nutiu
Faça coisas com a sua dor
Coloque o mar nos olhos
Deixe escorrer sem medo
Ressaca a estalar no seio

Musgos, plânctons, algas
Animais marinhos
A tocar os cílios
Talvez mesmo a íris

Janela a ser limpa
Por orixás
Ou quem sabe
Alguma deusa desconhecida

Então faça
Caminhe até o farol
Uive de frente para a baía
Finque os pés na areia
Comece uma coleção de conchas
Atire-as no vento sem olhar pra trás
Escale uma figueira
Dance em volta do fogo
Aprenda a ver no escuro

Agradeça

Faça coisas bonitas com a sua dor
Pinte ondas no que antes era água e nada
Deixe arder
Mas te lembra:
floresça

Como quem diz
Está tudo bem

Ou ainda
Perdóname
Lo siento
Te amo
Gracias.

Eu escrevo


Eu escrevo
então tatuei uma chave no pulso esquerdo
perto da mão com a qual seguro o lápis
pra não esquecer nunca
que isso é tudo o que eu sei
que existir é sobre isso

Mas nunca me disse escritora

(certo medo de pré-escola
uma insegurança a me pesar sobre os ombros)

olho em volta
e qualquer João
não tem medo algum

em letras garrafais
a assinatura bem empolada sobre a linha fina:
escritor

Então eu não escrevo
não só

Há que se apropriar do feminino
da marcação de gênero
do chamamento

Sou escritora

e não há verso
em que eu não me aprisione
para me libertar.

Como se

A gente vai vivendo como se
um minuto valesse
todo o resto das coisas todas

Como se fôssemos dados ao amor
como se fôssemos suficientes

A gente vai vivendo enganando os dias
se equilibrando em ponteiros de relógios quebrados
como se existíssemos sem destino

Mas sempre houvesse um cais
ou qualquer embarcadouro
de origem ainda desconhecida

Como se houvesse
um final feliz
a gente vai vivendo
como se.

Rennie Ellis

Formigas

Eu gostaria
na verdade
de não me abalar
tão facilmente
com as coisas

Todas elas
as gigantes
e as minúsculas

Eu gostaria apenas
não é pedir muito
de um pouco de paz

Mas
é sempre uma desordem
mãos suando nas manhãs vazias
corpo cheio de formigas
como se fosse mel que escorresse
 pelos meus buracos

Eu gostaria de chorar mais
e pensar menos
de saber dizer não
de sofrer pouco com livros de poesia
de fazer o ar parar de faltar

Também gostaria de fingir menos
que sinto tanto
quando
na verdade
às vezes vou pra frente do espelho
pra poder me ver lambendo o pouco
da água salgada que escorre

Eu gostaria que as coisas fossem mais dóceis
visto que já tenho quase 30 anos
e o mundo é uma bola grande e dolorida

Mas continuo aqui
pernas abertas, braços escancarados
uma pontada no pulmão
(e ainda acho bonito)

Talvez a única coisa a fazer
seja mesmo
tocar um tango argentino.

Lugar seguro

Você é um lugar seguro
Em que eu aprendi a estar

Um buraco fundo
e quente
cavado com mãos sardentas
e unhas roídas
e guardado em segredo
nas minhas esquinas

É pra esse buraco que eu corro
vez em quando
quando tudo dá errado
e cavo eu mesma
com as minhas mãos vazias

e encho as unhas de terra
até sangrar
e arder
até preencher outros buracos e cantos e quinas
até pintar de vermelho
o que já não faz sentido algum.

Pó de parede

Angústia é fala entupida
Ana me disse
enquanto eu abria o livro rosa
como quem brinca de minutos de sabedoria

Hoje choveu a noite toda
e o sol está em aquário
o que eu não sei exatamente o que significa
porque me escondo atrás de mapas e graus e casas

Hoje choveu a noite toda
repito como quem faz um poema
e ontem eu arranquei todo o papel de parede
do meu quarto de menina

E respirei pó de parede a noite inteira
como que pra recuperar
alguma palavra perdida
entre a massa
e as marcas dos pregos que já foram

Acordei doente
a cabeça pesada
a garganta seca
como quem bem inspirou
e expirou
e inspirou
e expirou
durante pouco menos de oito horas
o pó dos dias

Aquela parede já viu tanta coisa
e teve seu fim na sacola plástica
do super mercado

A vida é uma bagunça
me disseram

Uma bagunça de pus nas amídalas
de nó nos encontros
de mãos bonitas que se apertam
e se soltam
e se perdem

E de outras mãos que chegam
e se prendem
e se arranham
e se perdem de novo

Todas, tudo
o tempo todo
indo embora

A vida é uma bagunça
eu anotei no canto do caderno
mas é disso que somos feitos.


Só pela história

Só pela história

Eu era capaz de muitas coisas
de atravessar a cidade
de mergulhar em piscinas sujas
de escolher trilhas estranhas
de ir pelo caminho mais longo
de varar a noite em espuma
só pra poder sentir

Eu era capaz de muitas coisas
pelo buraco no estômago
pelo coração descontrolado

Forço
cutuco
simulo
cavo

Trombo com um sorriso
e ligo o rádio
coloco um samba triste
declamo poesias eróticas
no meio da sala

Tiro fotos sem roupa
pensando em você
enquanto desenho na minha pele
um rosto que não existe
porque eu o inventei

A boca vermelha
um quente no meio das pernas
e de repente eu sinto vindo
de novo

A sensação
experimentada pela primeira vez aos cinco anos de idade
quando me apaixonei pelo menino da casa da árvore
e não deu certo

(Ele foi pra Tailândia
e tudo o que guardo é a foto de um elefante)

Então escrevo
pra que todos os países distantes que me espreitam façam sentido
Enquanto repito que é mesmo melhor amar, sofrer, chorar

E obedeço
honro o sobrenome
desgrudo a unha da carne de propósito
me derramo em lençóis de cama
faço carinho em estranhos

E amo em mim outros corpos
só pra escrever cartas de amor pra ninguém.

Itinerário

@kaspark
Viajava 117 km
Sem os pés tocarem o chão

Pela janela do carro
Minha mãe traçava um mapa afetivo
De rios, quebra-molas e pontes suspensas

Tibagi, Laranjinha, Cinzas
Esses montes de água
Eram todos oceanos
Enxurradas
Encharcando meu olhar de menina

Corre, criança!

Deixa molhar
Inundar
Transbordar

Decora a rapidez do velocímetro
A dança dos musgos, pedras, corredeiras
Bois de piranha, placas de sinalização
Botes inseguros, barcos à vela

(Os rios da infância
são
sempre
maiores
dentro de nós.)

Retardatário

Talvez nunca seja uma palavra um pouco forte
mas você nunca aparecia quando eu realmente precisava
quando eu pedia
e implorava

por declarações
cópias das chaves de apartamento
provas bobas de amor
(um bilhete, carinho nas costas, dedicatórias)

Nunca era às vezes
mas é tudo muito bagunçado do lugar que eu lembro agora
(pour ma mémoire)

O passo saiu errado
virou pisada no dedão do pé
unha encravada
farpa
fungo
calo

Desencontr amos

Errei também
talvez de uma forma diferente
de modo que nada disso pode ser medido

Mas já deu a hora
ninguém aguenta mais falar no assunto
nem eu
nem você
nem os nossos amigos em comum
que precisam ouvir duas vezes a versão da mesma história

Eu só preciso dizer
que você sempre chega atrasado

(Você sempre é exatamente o que eu preciso quando eu já não preciso mais)

Não sei se é a música do Caetano
o quereres
tão seus
sempre

Mas
apesar de nunca ser uma palavra muito forte
muito curta e muito afiada
você nunca estava quando eu precisava que você estivesse

Era sempre um atraso
um tropeço
uma caixa de entrada vazia
uma passagem adiantada
uma visita corrida

Você me disse palavras bonitas
agora
(foi há pouco)
e eu chorei uma grande poça d´água
mas passou

I can't do anything with your easy words, lembra?

(Não agora)

Mas você está certo
Matilde Campilho está certa
we've changed, honey boo
e tudo bem

É novembro
Está tarde
É hora de trocar os lençóis
enfim.

Acorda. Você está atrasado.

Clare Elsaesser 

Do muito e do pouco


A gente se contenta com pouco
vangloria o abraço frio
a cabeça no meio das pernas
exalta o macho exaltado

A gente se contenta com pouco
porque tem um mundo todo
dentro de nós

E em volta é só bagunça
e dor
e paus querendo entrar e sair
entrar e sair

Mas não vão
não vão entrar mais

Porque a gente se contenta com pouco
mas tem que parar

Tem que ser desejante
sujeito
concedimento

Tem que ser bom
tem que ser dois

Tem que entrar porque quer
Porque é bom
porque faz bem

Não entrar por entrar
chutar portas
estourar janelas
pisar com os pés sujos no chão de mim
(no chão de você)

[Tire os sapatos para falar comigo, menino]

A gente se contenta com pouco
mas não devia

Devia era se esparramar sem medo
no corpo de quem também se esparrama
No corpo de quem não é chute, força, bola de angústia na garganta

A gente se contentava
Mas o pouco nunca vai ser muito
quando a gente começa a enxergar

que se contentar
é estar contente
não só porra, pouco e nada

que em dança de dois
só é par quem sabe
que o muito é a única forma
de se saber gozo, corpo
e coração batendo por todos os lados.

Orfeu menos Eurídice (coisa incompreensível)


Sabe, a vida sem você é uma bagunça bonita. Tudo é uma outra versão da mesma coisa.
Eu não sei se você acordou às duas da tarde ou se resolveu levantar às sete, em um daqueles dias que você cisma que quer ser saudável, para de fumar e sai pra caminhar no parque.

Eu não sei quase mais nada de você. E acho que tudo bem.

Esses dias você me disse que é tudo muito triste, porque de fato a gente vai se acabando mesmo, até o ponto em que vai se esquecendo, se esquecendo e de repente tudo se resume a uma foto guardada no fundo da gaveta do criado-mudo que causa surpresa quando encontrada.  Quanto tempo passou, né?, nós vamos pensar.

É estranho sentir outras bocas, outros cheiros.

Mas é um estranho bom. Porque terminamos por aqui mas ainda existimos. Eu e você.
Não há mais nós no presente. Somos o que fomos - e isso não muda nunca.

Mas é bom deixar as coisas pra trás. Saber a hora de deixar ir.

Acho que isso, na verdade, é a equação mais difícil de um relacionamento. Cada parte da gente quer ficar, mas a gente sabe, sente ali no fundo, que é hora de ir. Que precisa. Tipo um abre alas para o coração: deixar os olhos verem outra coisa.

E eles veem. E como veem. E outras coisas surgem e outras pessoas surgem. Pessoas que você nunca tinha desconfiado da existência, mas que andam por aí e dançam e bebem e beijam.

Mas isso não apaga, não. Nada apaga a gente.  Eu sinto que vou ser meio que sempre um porta estandarte de tudo o que a gente viveu. Tá na minha pele. No mapa que você traçava com a ponta dos dedos com as pistas deixadas pelas pintas das minhas costas.

Seu gosto continua aqui.

Mas sigo. Preciso. Você também.

Quanta coisa que nem cabe. Que sorte a nossa.

Vai tua vida. Orfeu menos Eurídice (coisa incompreensível).

Imaginação

De todos os amores que eu tive
os que eu
não vivi
foram os
 m a i o r e s.

Breve reflexão sobre a crônica, o eu do cronista e o autor empírico

O texto do Gregorio Duvivier causou comoção nacional nesta semana. Eu o li, achei uma crônica bonitinha e segui a vida. Não entendi direito o porquê de todo o frisson, mas, lendo textos e comentários sobre, concluí: quando se trata da crônica, as pessoas não sabem diferenciar o eu do cronista do autor empírico
Explico: quando lemos um poema, não pensamos: nossa, olha essa poeta expondo seu boy; ou: nossa, olha esse poeta atravessando os limites do público e do privado. Isso tem uma explicação, claro. A poesia é "protegida" pelo eu lírico, essa espécie de persona poética, uma voz que permite dizer o que quer que seja dito. 
Do mesmo modo, no conto e no romance temos narradores - e por mais que sejam em primeira pessoa ou com toques claramente autobiográficos, é certo que há uma distinção entre narrador e autor. 
Na crônica, em específico, isso se confunde um pouco. E, claro, tem ligação com as características próprias do gênero: despretensiosidade, cotidiano, simplicidade, tom íntimo, proximidade com o leitor, enfim, a vida ao rés do chão. Apesar de suas muitas possibilidades, a crônica a como estamos acostumados hoje acaba remetendo a certa proximidade com a vida daquele ou daquela que a escreve. 
Não há como não se sentir próximo de Tati Bernardi, Antônio Prata, Milly Lacombe e do próprio Gregorio Duvivier - para citar alguns cronistas atuais. E era assim antes também, com Rubem Braga, Vinicius de Moraes, Fernando Sabino, Mário Prata, Clarice Lispector, Drummond...  A proximidade é real. Isso é indiscutível. Até pelo próprio suporte da crônica, que está lá, em sua essência, nas páginas do jornal, no folhear rápido e no encontrar de repente com uma voz parcial, que te diz mais coisas além de o que, quando e como. Cruzar os olhos com uma crônica entre as páginas do jornal nos faz quase que dizer: muito obrigada. É a eternidade na impermanência
Isso não quer dizer, no entanto, que um cronista tem compromisso com a verdade ou que está simplesmente passando no papel a sua própria vida, sem filtro, sem intenção literária. Ou melhor: isso não quer dizer que um cronista não ficcionalize as coisas e também a própria vida. A crônica é um gênero literário e é tão enganador quanto qualquer outro - talvez até mais, por exatamente simular o não engano. A crônica não é autobiografia.
Exatamente por isso, eu gosto da ideia, cunhada por Luiz Carlos Simon, de chamar essa voz da crônica, que às vezes tanto se aproxima do autor empírico, o autor de verdade, o nominho na frente da capa, de eu do cronista. Isso ajuda a separar as coisas e fazer com que a gente pare de soar como xerife de gêneros literários e colocar na fogueira escritores e escritoras que só estavam fazendo, adivinhe só, literatura. 

Respirar de novo

Eu descobri agora porque parei de repente de ler.
Hoje eu acordei, coloquei minha blusa vermelha de lã, a meia por cima da calça de moletom. Em casa, tão confortável, tão segura. Aqui, nada de ruim pode acontecer comigo. A cachorra lambe as patas, ansiosa. O gato se esconde embaixo da colcha, com medo do mundo. Gato de apartamento.
Mas aqui eu acho que estou segura.
Então eu resolvi tirar uma manhã inteira pra ler aproveitando o silêncio raro que paira por aqui. Estou sozinha e confortável. A porta está trancada, minha mãe foi pra casa da minha avó, casa que habita a maior quantidade de loucura por m² . Três filhos, dois esquizofrênicos.
Passei a minha infância inteira com medo de enlouquecer. Quando não era isso, era o medo da minha mãe morrer. Os vinte anos chegaram e lembrei do que sempre me disseram: é aí que a psicose bate. Já passei da metade da década fatídica e ainda nada. Eu já fui pro divã duas vezes, então devo ser mesmo neurótica. Histérica, mais provavelmente. Não sei. Mas e se Freud estiver errado e Lacan não tiver percebido? E se a loucura ainda bater por aqui e a minha analista não percebeu?
Eu tenho a sensação de que desde criança eu fico masturbando a minha mente o dia inteiro. Pensando o que fazer com a alegria quando estou feliz e o que fazer com a tristeza quando estou na merda. Não chego a nenhuma resposta para os dois casos e sigo compulsiva por pensar. Traçar planos e rotas e medos e histórias inventadas com pessoas que não conheço e que provavelmente nem sabem que são personagens da história mental absurda que invento todos os dias desde que me conheço por gente.
Eu consegui dar uma bloqueada em todos esses impulsos por um tempo. Um tempo que coincidiu com a maior ressaca literária da minha vida. Eu parei de ler.
Eu respirei fundo e consegui acordar cedo por um ano inteiro e cumprir com meus compromissos. Eu escrevi uma dissertação, eu desisti de escrever romances. Eu coloquei uma calça flare e uma bolsa de couro e pensei: agora sou adulta. Eu consigo. Não pode ser assim tão difícil.
É isso que os adultos fazem o tempo todo, né? Eles mentem que tá tudo bem enquanto procuram o tarja preta no fundo do bolso.
Eu falo pra minha analista que às vezes eu só queria que a minha cabeça parasse um pouco. Só queria não sentir às vezes. Acordar e conseguir fazer as coisas sem morrer de angústia no meio do dia. Sem chorar porque não cheguei a lugar nenhum, mesmo sem saber que lugar é esse que eu queria tanto ter chegado.
Eu explodi hoje. Depois de tanto tempo, eu explodi. E vejo agora que eu estava meio dormente, como se tivesse sentado em cima do meu próprio pé e não o pudesse o sentir por inteiro. Só que eu estava toda assim. E daí peguei um livro sobre guerra e mulheres pra ler neste domingo de manhã e não tive como continuar, porque a guerra contada por mulheres é a guerra subjetiva, é a guerra útero e sangue e tranças. Mas daí o estrago já tinha sido feito e restou essa bola de alguma coisa no meio da garganta. Aconteceu. Voltei a doer inteirinha, depois de tanto tempo. Arde e eu escrevo, arde e eu escrevo. Então finalmente consigo respirar direito de novo.

Os anos que passamos juntos

Depois que acabam, os anos que passamos juntos ficam parecendo memória inventada. A cama triplica de tamanho, o cobertor amanhece intacto sobre meu corpo. 
Eu posso escolher todos os filmes e pausar mil vezes pra anotar as minhas frases preferidas, fazer xixi  mil vezes ou começar a ver outra coisa. Ninguém diz nada, porque não há mais alguém.
Eu também posso dormir ainda nos créditos iniciais, ver séries de clones ou assistir aos meus desenhos preferidos - e posso chorar com o fim deles, porque eu sempre choro e você sempre ri, sempre ria, porque é uma pessoa que não entende como pode ser triste o final de Toy Story 3. 
"Eu já vivi isso antes", eu tento me lembrar. 
Fica tudo uma grande bagunça, em que você não sabe direito pra onde andar, como se vestir, como dançar sozinha no meio da pista. E então você busca um corpo amigo pra abraçar e dançar com você e fecha os olhos bem apertado e finge que tudo desapareceu e que você se basta. 
Mas talvez isso não seja verdade. 
Ou talvez seja, mas isso não faz das coisas menos doloridas agora.
É preciso reaprender a ser eu mesma.
O que eu desejo? Quem eu quero ser? Como será o próximo ano? Qual será o próximo passo?
Análise e bebida ajudam. Dançar é bom. Conversar com amigos. Sexo casual. Conversar com amigos de novo. 
Eu me distraio. 
Parece que vai dar certo. Já terminei o livro que comecei a ler ontem, já organizei a agenda, quero passar o ano novo no Deserto de Atacama. Curso de inglês do outro lado do mundo talvez seja uma boa - um lugar em que a gente não exista e eu tenha que inventar outros nós. Voltar a fazer exercício físico também pode ser bom. Começar a fumar pode ser uma boa ideia.
Quereres.
De repente agora aprendo de vez a ser adulta.

(Mas do café que eu faço de manhã ainda sobra uma xícara.)

A internet e o silêncio

Natalie Foss

Às vezes parece que eu só existo enquanto eu falo. Na alegria e na tristeza, na saúde e na doença. 
A tristeza pede doses mais dramáticas. Versos são sempre bem-vindos pra tentar dar conta da bagunça. O contrário, a alegria, também costuma funcionar mais ou menos assim. Só que é um espernear sem tamanho. Geralmente vem em prosa, em fala não contida, em vontade de dançar.
Mas eu às vezes quero o silêncio. Preciso dele. Pode ser o sol que está em Câncer ou só aquela sensação de que de vez em quando a vida pede uma pausa pra respirar. Duas braçadas e o ar entrando ardido pelo nariz e pela boca. Mais duas braçadas.
Às vezes surge aquela vontade de ficar quietinha, da meia por cima do pijama, sem maquiagem, sem sutiã;  chegar em casa, tirar os sapatos e se tacar no sofá pra assistir qualquer coisa que fale por mim.
Mas como lidar com esse desejo silencioso em tempos de internet e redes sociais, esse mangue de palavra e som? 
Nessas últimas semanas tenho pensado muito isso. Nesse desejo de fazer-se ver como ideal, sem sombras, sem falhas, sem tristezinhas fundas e insistentes.
Não à toa, bate aquela bad trip quando a gente rola o feed do Instagram e pensa: essas pessoas conseguiram passar por este dia de uma forma que eu não consegui. A boa e a má notícia é: elas também não conseguiram.

Excesso de conteúdo & vida perfeita

Rede social e internet são simulacros e isso não é nenhuma novidade. Você é seu avatar e vende a saúde, a beleza, a boa vida. Pode vender também sua inteligência, seu bom senso, seu olhar crítico. Tudo depende. Apesar de algumas mudanças significativas, ainda há a necessidade de perfeição, seja na beleza, seja na coerência. Só que a perfeição não existe nem nesses casos nem em nenhum outro. Mas nadar em busca disso me parece o ritmo com o qual muita gente ainda dança, apesar das tentativas de fuga.
Fala-se muito por aqui. Há essa necessidade de expor, de botar pra fora. Textão is the new vômito e seguimos assim, nos virando do avesso. Junta-se isso ao ideal de vida perfeita, do avatar que não sofre, que não se deixa atravessar pelas ~adversidades~, e temos o n.1 do menu: o sentimento de fraude.
Não dá pra ser feliz o tempo todo. Não dá pra ser leve o tempo todo. E como falar sempre sem se mostrar frágil, torta, incapaz? A resposta, pra mim, está na pergunta. Retira-se o "sem". Não adianta fugir/fingir. Somos todos frágeis, tortos, incapazes. A mentira não cola mais. Não por acaso, a rede social que mais vem crescendo no momento é o Snapchat, que até então preza pelo real, pelo sem filtro, pela efemeridade que simula o diálogo entre as pessoas. Fala-se e as palavras se perdem por aí segundos depois. O que fica é a lembrança, o impacto, o riso.

Isso tudo pra dizer: como respeitar o próprio silêncio na internet?
Não tenho ideia, mas penso que a resposta não cabe aqui nem em nenhuma outra rede - e o desejo pelo silenciamento, infelizmente ou felizmente, não se autodestrói em 24 horas.

Youtube é ótimo, mas você já experimentou vida real?

Do amor e outros demônios

Clare Elsaesser
O amor fez pouco caso do corte
Do sangue estancado
Do molhado do corpo

O amor tirou minha roupa
E me forçou a decorar sonetos
Exaltar poetas homens
Casar no papel com o cânone

O amor riu das minhas faltas
Perdoou meu pouco caso
Desfilou na avenida com buquês e confetes
(Apesar da fragilidade)

O amor me tacou um grão de arroz no canto do olho
Despetalou a flor vermelha
Colocou pra secar a pétala e já não lembra mais onde

O amor não é bonitinho
É um cão abandonado
Cheio de verme e de raiva

Que levado pra casa
De banho tomado
 Foge no outro dia
Deixando o portão aberto.

Quando as amigas se casam

Minhas amigas estão casando. São mulheres fortes, decididas e independentes que decidiram juntar caminhos e seguir de mãos dadas com outra pessoa. Acho isso forte e bonito. Escolher se dividir e acabar somando, deixando tudo mais leve pra ambos os lados. Construir casa, desconstruir manias, partilhar o tempo.
Hoje uma das minhas melhores amigas de infância se casa com um homem maravilhoso, que se tornou também meu amigo.
Quando ela entrar na igreja, eu vou lembrar das nossas brincadeiras, das nossas fugas, das nossas tatuagens caseiras com as iniciais dos primeiros amores doloridos. Eu vou lembrar das nossas brigas e de como ela sempre me mandava telemensagem pra se desculpar. Eu vou me lembrar do primeiro beijo dela, do meu primeiro beijo; de como ela me dizia que eu era linda quando eu me achava um lixo aos 13 anos; de como eu dizia a ela que ela era linda quando tudo parecia desmoronar. Eu vou lembrar de todos os nossos amores inventados, nossos amores verdadeiros, nossos amores fingidos. Eu vou lembrar do cheiro dos lençóis da casa dela de quando ficávamos conversando até adormecer (e de como ela não suportava a ideia de eu sempre querer dormir encostando).
Eu vou lembrar também de como ela me ensinou que ser mulher não precisa ter a ver com delicadeza e calma, que falar alto e se impor também podem ser traços nossos. E a gente falou alto e se impôs e construímos juntas uma infância-adolescência cheia de coisa maluca, planos viajados e experiências precoces. Dividimos nossa história e vamos continuar dividindo.

Casar não muda nada. Casar é continuar a ser feliz com direito à celebração no meio. 

Mas quando ela entrar de branco na igreja, bem ela, que dividiu comigo os maldizeres da catequese, eu vou lembrar de tudo isso, agradecer pela nossa amizade milenar, nossos caminhos cruzados, e torcer para que ao lado de outra pessoa ela tenha a felicidade e o amor que sempre foram dela por direito - e com os quais tanto sonhamos e fantasiamos em dias difíceis, em que nunca poderíamos imaginar a noite que hoje está por vir.
"O que une as almas é o respeito gêmeo. E mútuo. A cumplicidade. A companhia. A amizade.
A paciência. A crença de que, somados, burlaremos qualquer destino.
Vão dizer: e não é o amor, afinal, quem faz este milagre, etc. e tal?
Não, não é. É a realidade que faz o sonho, de verdade, acontecer.
Doa a quem doer. Um ao lado do outro, para sempre.
Fica mais fácil viver." (Marcelino Freire)
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...