Eu escrevo
Eu escrevo
então tatuei uma chave no pulso esquerdo
perto da mão com a qual seguro o lápis
pra não esquecer nunca
que isso é tudo o que eu sei
que existir é sobre isso
Mas nunca me disse escritora
(certo medo de pré-escola
uma insegurança a me pesar sobre os ombros)
olho em volta
e qualquer João
não tem medo algum
em letras garrafais
a assinatura bem empolada sobre a linha fina:
escritor
Então eu não escrevo
não só
Há que se apropriar do feminino
da marcação de gênero
do chamamento
Sou escritora
e não há verso
em que eu não me aprisione
para me libertar.
Como se
A gente vai vivendo como se
um minuto valessetodo o resto das coisas todas
Como se fôssemos dados ao amor
como se fôssemos suficientes
A gente vai vivendo enganando os dias
se equilibrando em ponteiros de relógios quebrados
como se existíssemos sem destino
Mas sempre houvesse um cais
ou qualquer embarcadouro
de origem ainda desconhecida
Como se houvesse
um final feliz
a gente vai vivendo
como se.
![]() |
| Rennie Ellis |
Formigas
Eu gostaria
na verdade
de não me abalar
tão facilmente
com as coisas
Todas elas
as gigantes
e as minúsculas
Eu gostaria apenas
não é pedir muito
de um pouco de paz
Mas
é sempre uma desordem
mãos suando nas manhãs vazias
corpo cheio de formigas
como se fosse mel que escorresse
pelos meus buracos
Eu gostaria de chorar mais
e pensar menos
de saber dizer não
de sofrer pouco com livros de poesia
de fazer o ar parar de faltar
Também gostaria de fingir menos
que sinto tanto
quando
na verdade
às vezes vou pra frente do espelho
pra poder me ver lambendo o pouco
da água salgada que escorre
Eu gostaria que as coisas fossem mais dóceis
visto que já tenho quase 30 anos
e o mundo é uma bola grande e dolorida
Mas continuo aqui
pernas abertas, braços escancarados
uma pontada no pulmão
(e ainda acho bonito)
Talvez a única coisa a fazer
seja mesmo
tocar um tango argentino.
na verdade
de não me abalar
tão facilmente
com as coisas
Todas elas
as gigantes
e as minúsculas
Eu gostaria apenas
não é pedir muito
de um pouco de paz
Mas
é sempre uma desordem
mãos suando nas manhãs vazias
corpo cheio de formigas
como se fosse mel que escorresse
pelos meus buracos
Eu gostaria de chorar mais
e pensar menos
de saber dizer não
de sofrer pouco com livros de poesia
de fazer o ar parar de faltar
Também gostaria de fingir menos
que sinto tanto
quando
na verdade
às vezes vou pra frente do espelho
pra poder me ver lambendo o pouco
da água salgada que escorre
Eu gostaria que as coisas fossem mais dóceis
visto que já tenho quase 30 anos
e o mundo é uma bola grande e dolorida
Mas continuo aqui
pernas abertas, braços escancarados
uma pontada no pulmão
(e ainda acho bonito)
Talvez a única coisa a fazer
seja mesmo
tocar um tango argentino.
Lugar seguro
Você é um lugar seguro
Em que eu aprendi a estar
Um buraco fundo
e quente
cavado com mãos sardentas
e unhas roídas
e guardado em segredo
nas minhas esquinas
É pra esse buraco que eu corro
vez em quando
quando tudo dá errado
e cavo eu mesma
com as minhas mãos vazias
e encho as unhas de terra
até sangrar
e arder
até preencher outros buracos e cantos e quinas
até pintar de vermelho
o que já não faz sentido algum.
Em que eu aprendi a estar
Um buraco fundo
e quente
cavado com mãos sardentas
e unhas roídas
e guardado em segredo
nas minhas esquinas
É pra esse buraco que eu corro
vez em quando
quando tudo dá errado
e cavo eu mesma
com as minhas mãos vazias
e encho as unhas de terra
até sangrar
e arder
até preencher outros buracos e cantos e quinas
até pintar de vermelho
o que já não faz sentido algum.
Pó de parede
Angústia é fala entupida
Ana me disse
enquanto eu abria o livro rosa
como quem brinca de minutos de sabedoria
Hoje choveu a noite toda
e o sol está em aquário
o que eu não sei exatamente o que significa
porque me escondo atrás de mapas e graus e casas
Hoje choveu a noite toda
repito como quem faz um poema
e ontem eu arranquei todo o papel de parede
do meu quarto de menina
E respirei pó de parede a noite inteira
como que pra recuperar
alguma palavra perdida
entre a massa
e as marcas dos pregos que já foram
Acordei doente
a cabeça pesada
a garganta seca
como quem bem inspirou
e expirou
e inspirou
e expirou
durante pouco menos de oito horas
o pó dos dias
Aquela parede já viu tanta coisa
e teve seu fim na sacola plástica
do super mercado
A vida é uma bagunça
me disseram
Uma bagunça de pus nas amídalas
de nó nos encontros
de mãos bonitas que se apertam
e se soltam
e se perdem
E de outras mãos que chegam
e se prendem
e se arranham
e se perdem de novo
Todas, tudo
o tempo todo
indo embora
A vida é uma bagunça
eu anotei no canto do caderno
mas é disso que somos feitos.
Ana me disse
enquanto eu abria o livro rosa
como quem brinca de minutos de sabedoria
Hoje choveu a noite toda
e o sol está em aquário
o que eu não sei exatamente o que significa
porque me escondo atrás de mapas e graus e casas
Hoje choveu a noite toda
repito como quem faz um poema
e ontem eu arranquei todo o papel de parede
do meu quarto de menina
E respirei pó de parede a noite inteira
como que pra recuperar
alguma palavra perdida
entre a massa
e as marcas dos pregos que já foram
Acordei doente
a cabeça pesada
a garganta seca
como quem bem inspirou
e expirou
e inspirou
e expirou
durante pouco menos de oito horas
o pó dos dias
Aquela parede já viu tanta coisa
e teve seu fim na sacola plástica
do super mercado
A vida é uma bagunça
me disseram
Uma bagunça de pus nas amídalas
de nó nos encontros
de mãos bonitas que se apertam
e se soltam
e se perdem
E de outras mãos que chegam
e se prendem
e se arranham
e se perdem de novo
Todas, tudo
o tempo todo
indo embora
A vida é uma bagunça
eu anotei no canto do caderno
mas é disso que somos feitos.
Assinar:
Postagens (Atom)




