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O amor... essa palavra

Eu nunca entendi meu coração. Desde pequena é assim, essa briga, esse jogo, essa coisa...
Isso me fez escrever lá pelos 15 anos uma bossa-nova bem melosa e sem graça em que eu dizia na estrofe principal: eu não sei usar amor. É, eu disse isso. E quer saber? Às vezes me pego pensando que eu não sei usar mesmo. Assim: não me cabe. Uma coisa estranha, de achar que o amor é feito um livro que se lê e não se vive. Nunca entendi muito bem.
Entendo muito pouco de amor, na verdade. Talvez isso explique o meu coração desencantado de adolescente. Meu pai não soube usar amor – o amor era coisa-grande pra ele, tão grande que acabou de repente. Minha mãe não soube usar amor – o amor era coisa média e depois ficou tão grande que não acaba nunca mais. Meu avô não soube usar amor – lá pelos meados dos anos 40, morando em uma cidade que só tinha uma única rua, saía com outras mulheres enquanto a minha avó costurava em casa. Minha avó não soube usar amor – esqueceu tudinho e quando é perguntada sobre qualquer coisa acerca desse sentimentozinho ela diz: “o amor?! Essa palavra...” e não fala mais nada. Pra piorar tudo, nem meu cachorro sabe usar amor – ele só parece amar a gente quando está doente, ou algo assim, quando ele está bem nem nos olha na cara.
É engraçado essa história de amor... pensar que nessa hora existe um monte de gente morrendo de amores em vários cantos do mundo. Casais apaixonados em Paris, pessoas transando em um motel barato, uma mulher de coração partido comendo chocolates no quarto e jurando pra si mesma que sim, ela goza melhor sozinha, um homem triste e solitário se derramando dentro de uma mulher a quem ele nunca dará seu coração.
Ninguém sabe usar amor. O amor não é usável- pensei. Talvez o amor, essa palavra, seja exatamente isso. O não-saber. Sentimento-grito. Objeto-pulsante. Só isso: O amor, essa palavra...

O amor não morreu

O amor não morreu - apesar de morrer todos os dias. Mas hoje à tarde, perdido por entre livros e verbos em francês, o amor apareceu no arrepiar dos pêlos e nos olhos de alguém que talvez tenha o perdido em alguma mesa de bar.

- Eu vou me casar. - Disse a menina morena ensaiando uma voz meio-séria meio-extasiada.
- Mas é já-já, não é? Então corra senão não dá tempo. - A professora reforçou.
- Dá sim. Eu e ele guardamos dinheiro pra isso desde os três meses de namoro, porque já sabíamos que iríamos ficar pra sempre juntos.

(silêncio)

Isso mesmo: um silêncio doce e profundo.
Dos olhos da professora, que vira a mexe solta algumas frases cheias de um grito típico de quem não sente a mínima necessidade de se dividir em alguém, saíram algumas pequenas lágrimas que não chegaram a cair no rosto, mas encheram o olhar de uma esperança bonita, uma não-morte desse amor que insistem em matar todo dia.
O amor - essa palavra. Troço complicado, que bate e afaga ao mesmo tempo. Eu digo que depois dessa tarde o sinto melhor aqui ao lado, repousado leve sobre o canto esquerdo do coração. E vou dormir acreditando que a lágrima que quase caiu dos olhos da professora foi o sinal de que em algum canto dela ele ainda pulsa e não morre nunca por nunca deixar de viver em lugares que às vezes a gente ainda desconhece.

Meu coração cede de tanta sede

Há algo dentro de mim que grita intensa e verdadeiramente pelo seu nome. É quase como se em cada pulsar de átrio ou ventrículo existisse uma sílaba de seu nome, um traço de seu rosto, um arrepiar de sua pele.
Quase posso dizer também que é como se até o universo inteirinho, e os planetas com seus anéis ou só com seu solo macio e nu, e o cosmo e os buracos negros e as estrelas – essas testemunhas de nós em tantos céus de alguns lugares (que parecem tantos) – trouxessem no próprio cerne os nossos nomes juntos, a nossa certeza escrita na própria essência, sabe-se lá como.
Ando eloquente. Falo de coisas que eu mal conheço, coloco os astros no meio da nossa história, brinco com os deuses. Zeus, Afrodite... Pouco me importa.
Perdi a sede de literatura, meu amor. Minha sede agora é outra.
Sede de navegar no teu corpo feito um barco português a desvendar mares nunca antes conhecidos, passear por caminhos e me perder em rodamoinhos de ventos que só sua respiração rente a minha pode me proporcionar, encontrar terras imagináveis e outras existentes e nelas hastear uma bandeira.
Tenho tanta sede, meu amor. Agora, do alto da vontade de você em que atiro essas palavras num papel sem vida, morro de sede. Uma morte doce. Sim, uma morte com o cheiro do seu lençol que não me sai da pele. Desse modo, me perco entre seu sorriso, seu dedo meio torto igual ao meu, seu pescoço arrepiado, sua boca vermelha, seu olhar tão adocicado e sorrio no meio das estrelas, do cosmo, dos buracos negros, das galáxias e de todos os deuses, que ao te sentir suspirar cansado e adormecer deitado em meus seios depois de uma noite longa, eu sei, também sorriem de volta para mim.
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