Aritmética


Toda vez que eu termino de ler um livro, tenho um ritual: vou folheando página por página e encontrando marquinhas feitas à lápis que significam nada mais nada menos do que partes que eu achei interessantes. Só depois de transcrever todos esses trechos para um lugar onde eu guardo coisas do mesmo gênero desde que eu tenho uns 12 anos é que vou até a estante, escolho uma prateleira e coloco o livro recém lido no seu lugar. A questão é que não fiz isso com Aritmética, livro da Fernanda Young, escritora que apesar de meio mundo falar mal, eu adoro e nunca me irritou - trocadilho seja feito - em nenhum dos livros que eu li até hoje. Pois bem, hoje de manhã resolvi pegar o Aritmética, livro que enquanto eu estava lendo me fez surtar e até pensar em pesquisar algo nele para o TCC, e transcrever os tais trechos marcados. Li faz uns 2 meses, e eu gostei tanto de reler essas partes que me deu vontade de colocar aqui:

E a língua portuguesa não agüenta mais a chateação dos meus versos repetidos, repetidos por ela, que tão docemente recebeu minha língua em sua boca, dando-me um gosto que um milhão de palavras não poderiam traduzir. Porque não há verbo, ou sinal, ou lirismo, que consiga expressar o estranho que foi, o desconforto que foi, saber: esse beijo é o meu beijo. [p. 11]

A vida humana é basicamente isso, não é? Ferir e perdoar. [p. 301]

Tem vontade de sacudir aquele corpo e dizer “ei, devolve. Devolve o amor que tinha aqui. Que preenchia essas lacunas no meu peito, deixando tudo menos frouxo em mim. Devolve a liga, o ponto que faz do bolo um bolo, o nó da lã do tricô. Me salva."
[p. 271]

As mulheres são tristes quando contam as suas coisas. [p. 249]

Constrage-me existir nesse personagem Chico Buarque, dolorida, bonita sendo assim, meio tonta, meio insistente, até meio chata. Nunca precisei aborrecer ninguém antes, então atuo por instinto, cansando-me facilmente. E que fique claro que não é por estar você dessa forma, tão esquivo, que o desejo tanto. Desejo-o porque desejo. Estúpida, latina. Bethânia. Ainda creio que você, quando eu menos esperar, possa me chegar com um verso em atitude. [p. 75]

Algo como o valor de se viver grandes amores, apesar de, em se estar vivendo, ficarmos condenados, também, a grandes desilusões. Aritmética, Fernanda Young
[p. 19]


E tem muitas outras... vale a pena ler o livro todo.

Da carne das palavras


Assim que seus olhos se deitaram sobre os meus as palavras ganharam um sentido diferente.
Não mais que de repente, eu soube de todas as nossas vidas, nossas fugas, nossos esbarrões, assim que nos perdemos pela primeira vez em lábios e línguas com um fundo musical que eu não lembro agora, mas estou quase certa de que se pudéssemos ser diretores do nosso próprio roteiro, mudaríamos sem dizer uma palavra. Apenas um sorriso de canto de boca. Como que para atestar que sim: a música que você escolheria seria – e não tenho dúvida – a mesma música que eu escolheria.
Eu soube que essas palavras que sempre saíram tanto da minha boca, palavras de poetas que eu sempre li, de escritores que as vomitam em mesas de bar, em prostíbulos cheios de mulheres que nada se parecem com a pessoa amada, em páginas amareladas de livros esquecidos em tantas estantes de casas onde essas palavras não fazem sentido algum, eu soube que todas elas mudariam de sentido. Signo, significado, significante – o velho professor repete pausadamente em minha orelha. Quero mais é que todos desçam pelo ralo junto com qualquer limitação. O sentido é outro. É sentido-sentimento. Eu sabia tanto das palavras, tinha decorado sonetos de Vinicius, trechos dos contos da Clarice, finais impactantes de romances clichês. Todos pelo ralo.
Me resta só o cru. O cru de todas essas palavras. O cru do seu nome. E é tudo tão doce. Tão-tão-tão doce. A dor de não acordar com você é doce pelo simples fato de te saber e te sentir e te respirar no meu corpo mesmo quando distante.
Me resta o cru desse verbo que escrevo na sua pele com a minha saliva. Esse verbo que mastigamos juntos enquanto te recebo dentro de mim. Esse verbo que me faz ser sua e te faz ser meu com as letrinhas na ponta dos dedos e da língua, nadando em salivas para chegar lentamente ao centro da gente. Cor-ação.
Simples e tão concreto que ainda não inventaram palavras que conseguissem dizer. E nem é preciso. Digo a você, meu amor. Só a você. E te sei em mim pelo que você consegue ler quando o que eu escrevo se resume apenas em um suspiro perdido nos lençóis de cama.

O silêncio é grito


(O que fazer com essas palavras que sempre vêm a me saltar da boca? Engulo-as assim, len ta men te, uma a uma, a fim de deixar todas do lado de dentro, bordadas nas paredes dos órgãos, no fluxo quente que corre pelas veias, no bater lento do coração.)

O sexo do amor

Amar
do latim amare
Verbo transitivo
- Ter amor a; gostar muito de.
- Estar apaixonado.

Não, não é isso que vocês estão pensando. Mas é quase. É que ultimamente venho percebendo que o amor tem sexo. Sim, como a gente, masculinofeminino. Desconfio até que o amor tenha uma genitália. Se você, cara amiga, não fica aí sendo sensível com qualquer marmanjo que dê na telha, se você não sai por aí distribuindo doçura para o mundo ou até se você não cumprimenta a todos com um delicado tchauzinho e um sorriso também delicado, parabéns, você tem um pau. Sim, é isso mesmo. E – pasmem – das duas uma, ou você tem um pau, ou você não gosta do mesmo. Isso mesmo, sem maiores eufemismos, você é uma puta de uma sapatão. Aham. Isso mesmo. Agora você, meu caro amigo, se você não goza e vira para o lado pra dormir, se você diz eu-te-amo e não eu-te-amo-também, se você não cospe na rua, e fala obrigado-porfavor, parabéns igualmente. Você tem uma vagina, ou, repetindo pra ficar bem claro, você não gosta da mesma. Ainda há os agravantes, claro. A mulher que gosta de futebol então... ou o homem que entende de literatura. Se entender de cinema então, fo-deu.
É tão absurdo o quadro acima que eu quase sinto vontade de vomitar. Estereótipos ridículos de uma sociedade mais ridícula ainda, que cansada de rotular até a própria bunda, resolveu sair por aí rotulando sentimentos e ações.
O amor tem sexo. Existe uma espécie de cadernetinha a ser seguida. Heteros fazem isso. Bissexuais fazem isso. Homossexuais fazem isso e isso. Fodam-se. Fodam-se com essas divisões medíocres.
Amor não tem sexo. Podem parar de matutar. Não se ama pelo par de peitos mais bonito, pelo pau maior, muito menos pela penetração mais funda – de dedos ou de pênis. Não se ama pelo corpo, matéria finda. Ninguém. Ou alguém aqui ao encontrar o amor-da-sua-vida, aquela pessoa que todo mundo espera mesmo que não diga, que se encaixa em cada cm em tudo o que você sempre idealizou, vai olhar e dizer: - hum, não... infelizmente com você não vai dar, porque você tem um saco pendurado aí embaixo. Ou, nossa, você é o amor-da-minha-vida, mas que merda, você tem grandes lábios, sorry.
Não somos genitálias humanas. Eu pelo menos não sou.
A minha vida toda eu procurei pessoas. Pessoa, para quem não sabe, é um substantivo e significa criatura humana.
O amor pra mim se dá pelo toque. Pelo cheiro da nuca. Pela disposição do sorriso. Pelo esticar dos dedos do pé no orgasmo. Pelo jeito de piscar. Pelo encaixe das mãos. Pelas batidas do coração. O amor pra mim é atemporal no tempo em que durar. É infinito na sua finitude. É assexuado na sua existência. É amor puro. Assim, sem complicações. E de repente penso que essas coisas de amor, de se dividir com alguém e em alguém, são simples demais. A gente é que complica tudo.
O amor pra mim se encontra na primeira pessoa do plural.
O amor pra mim independe do que se carrega no meio das pernas.
E sem querer ser piegas, mas já sendo há tempos, o amor pra mim depende apenas do que se carrega do lado esquerdo. Átrio, ventrículo, miocárdio. E se tem um órgão que deveria ser levado em conta na hora de julgar a verossimilhança do amor, é este.
E enquanto o mundo grita estupidez e pequenez, eu gozo de um amor tão grande que extrapola a matéria. E morro de um amor tão doce que – tenho certeza – pouquíssimas pessoas já experimentaram.
Amém.

Ensaio sobre a entrega


Se encontraram e fazia sol.
Estavam lá, sentados no mesmo banco. A mão de um segurando um cigarro com peso de três mundos, a mão do outro escrevendo qualquer besteira num desses cadernos que se tem medo de abrir. Rabiscando, talvez. Pouco importa.
O de cá tira um livro da bolsa.
- Que livro é este?
Com olhar assustado pela audácia vestida de naturalidade, responde. – Nelson Rodrigues.
Monossilábico por fora, mas feito um caça palavras por trás dos olhos castanhos tão comuns.
- Eu gosto.
- Eu estou começando a ler agora, na verdade.
- Isso é bom, menino.
O “menino” ficou soando alto nos ouvidos. Me-ni-no.
- Acho que sim.
- A crueza das coisas às vezes dói.
- Em Nelson?
- Em mim. Em você.
Alguns silêncios. Outro cigarro.
- Eu não fumo.
- Que bom pra você.
- Me dá um cigarro?
Alguns vazios.
Cigarro é sempre um ótimo caminho e uma boa desculpa pra esquentar a cama. E a alma.
- Moras aqui perto?
- Aqui na rua de trás.
- Eu moro aqui na rua da frente.
- Vou indo.
- Te levo.
- Mas é completamente oposto.
- Eu gosto.
Caminharam como a sensação de que, pé ante pé, estavam indo muito além do que seus passos ousariam pensar.
- Quer subir?
Perguntou quase que se arrependendo de ter o feito.
- Quero. Tomar café, quem sabe?
Droga. Pensou. Talvez sim. Talvez não. Quando o estado das coisas se chama solidão, qualquer coisa vale.
Sorriram.
O apartamento era pequeno. Escuro. Cheio de livros perdidos pelos cantos. Um deles estava aberto em cima da mesa ao lado do colchão que fazia às vezes do sofá. Nelson Rodrigues. O mesmo Nelson Rodrigues. Reparou isso envergonhado e já começou a pensar em destinos, cartas, búzios e signos. Aquário. Áries, talvez. Câncer, quem sabe. Bobagens que a gente inventa pra se acreditar em destino.
- Quer outro cigarro?
Fez que sim com a cabeça. O de lá se oferece para acender. Não acendeu. Não ainda. Agora sim.
O de cá solta a primeira baforada e eles se olham feito duas crianças cientes de que uma travessura estava por vir.
- Não gosto que me olhes assim.
- Por quê?
- Me arrepia cada centímetro de pêlo.
O de lá sorri de canto de boca e fecha os olhos de leve.
- Feche os olhos também.
- Fecho.
Rosto com rosto, esfregaram-se feito animais apaixonados.
Olhos fechados.
A respiração acelerada acompanha o ritmo do coração, velho de guerra.
Dos corações.
O de cá nunca amou ninguém de verdade, embora tenha amado daquela forma torta que parece o anti-amor, tão cru como as vontades rígidas um do outro. O de lá amou violentamente, só não morreu porque conseguiu enxergar na pouca realidade que lhe resta que brincar de Werther mais machuca do que cansa.
Se esfregavam feito gatos. Procurando na barba, nos pêlos, algo que dissesse qualquer coisa. Sobre eles. Sobre o que sempre falta.
- Me beija.
Beijaram-se.
Boca com boca.
O de lá arrancou sua própria camisa. Depois a calça. Ficou nu. Puro. Leve.
O de cá o seguiu, arrancando toda a roupa também.
Deitaram-se no chão escuro de madeira e se abraçaram, com as pernas entrelaçadas e as mãos dadas.
Beijaram-se mais e mais e mais. Engoliram-se num quase ritual antropofágico.
Corpo, nuca, mão e a tua mente não. Pensou. Pensaram.
Passaram a noite em claro. Beijando-se e tocando-se na esperança de que alguma coisa mostrasse que.
Vinho, cigarro, corpos tantos, salivas, dentes, rostos. Tanta coisa e esse buraco no meio do coração. Bobagem querer preencher.
Madrugada, explodiram. De amor cru, dolorido e doce. Melecaram-se inteiros e nunca mais se viram.
Fazia sol.
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