Há que se manter mesmo
certo mistério com os encontros
Alguma vergonha de pele
fruta visguenta escorrendo
talvez certa vontade de te chamar pelo meu nome
Tudo vira dia
quando somos eu e você
E não sei onde você começa
e onde eu termino
enquanto encaro nossas coxas
no lençol algum dia bem passado
Na sua arqueologia
descubro o passo sob o rio que não conheço
tateio o coração do mundo com os dedos dos pés
Não tenho medo
não precisa perguntar
Enquanto você dança
fugi da borda
dei a volta ao mundo
pulei de cabeça
Que desperdício forçar a si mesmo
a não sentir
Cedo aprendi: bom mesmo é dar a alma como lavada.
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Retardatário
Talvez nunca seja uma palavra um pouco forte
mas você nunca aparecia quando eu realmente precisava
quando eu pedia
e implorava
por declarações
cópias das chaves de apartamento
provas bobas de amor
(um bilhete, carinho nas costas, dedicatórias)
Nunca era às vezes
mas é tudo muito bagunçado do lugar que eu lembro agora
(pour ma mémoire)
O passo saiu errado
virou pisada no dedão do pé
unha encravada
farpa
fungo
calo
Desencontr amos
Errei também
talvez de uma forma diferente
de modo que nada disso pode ser medido
Mas já deu a hora
ninguém aguenta mais falar no assunto
nem eu
nem você
nem os nossos amigos em comum
que precisam ouvir duas vezes a versão da mesma história
Eu só preciso dizer
que você sempre chega atrasado
(Você sempre é exatamente o que eu preciso quando eu já não preciso mais)
Não sei se é a música do Caetano
o quereres
tão seus
sempre
Mas
apesar de nunca ser uma palavra muito forte
muito curta e muito afiada
você nunca estava quando eu precisava que você estivesse
Era sempre um atraso
um tropeço
uma caixa de entrada vazia
uma passagem adiantada
uma visita corrida
Você me disse palavras bonitas
agora
(foi há pouco)
e eu chorei uma grande poça d´água
mas passou
I can't do anything with your easy words, lembra?
(Não agora)
Mas você está certo
Matilde Campilho está certa
we've changed, honey boo
e tudo bem
É novembro
Está tarde
É hora de trocar os lençóis
enfim.
Acorda. Você está atrasado.
mas você nunca aparecia quando eu realmente precisava
quando eu pedia
e implorava
por declarações
cópias das chaves de apartamento
provas bobas de amor
(um bilhete, carinho nas costas, dedicatórias)
Nunca era às vezes
mas é tudo muito bagunçado do lugar que eu lembro agora
(pour ma mémoire)
O passo saiu errado
virou pisada no dedão do pé
unha encravada
farpa
fungo
calo
Desencontr amos
Errei também
talvez de uma forma diferente
de modo que nada disso pode ser medido
Mas já deu a hora
ninguém aguenta mais falar no assunto
nem eu
nem você
nem os nossos amigos em comum
que precisam ouvir duas vezes a versão da mesma história
Eu só preciso dizer
que você sempre chega atrasado
(Você sempre é exatamente o que eu preciso quando eu já não preciso mais)
Não sei se é a música do Caetano
o quereres
tão seus
sempre
Mas
apesar de nunca ser uma palavra muito forte
muito curta e muito afiada
você nunca estava quando eu precisava que você estivesse
Era sempre um atraso
um tropeço
uma caixa de entrada vazia
uma passagem adiantada
uma visita corrida
Você me disse palavras bonitas
agora
(foi há pouco)
e eu chorei uma grande poça d´água
mas passou
I can't do anything with your easy words, lembra?
(Não agora)
Mas você está certo
Matilde Campilho está certa
we've changed, honey boo
e tudo bem
É novembro
Está tarde
É hora de trocar os lençóis
enfim.
Acorda. Você está atrasado.
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| Clare Elsaesser |
#9 Lista da semana: cinco poemas de autoria feminina
Ana Cristina Cesar
é muito claroamor
bateu
para ficar
nesta varanda descoberta
a anoitecer sobre a cidade
em construção
sobre a pequena constrição
no teu peito
angústia de felicidade
luzes de automóveis
riscando o tempo
canteiros de obras
em repouso
recuo súbito da trama
Adélia Prado
CorridinhoO amor quer abraçar e não pode.
A multidão em volta,
com seus olhos cediços,
põe caco de vidro no muro
para o amor desistir.
O amor usa o correio,
o correio trapaceia,
a carta não chega,
o amor fica sem saber se é ou não é.
O amor pega o cavalo,
desembarca do trem,
chega na porta cansado
de tanto caminhar a pé.
Fala a palavra açucena,
pede água, bebe café,
dorme na sua presença,
chupa bala de hortelã.
Tudo manha, truque, engenho:
é descuidar, o amor te pega,
te come, te molha todo.
Mas água o amor não é.
Angélica Freitas
Eu durmo comigo
eu durmo comigo/ deitada de bruços eu durmo comigo/ virada pra direita eu durmo comigo/ eu durmo comigo abraçada comigo/ não há noite tão longa em que eu não durma comigo/ como um trovador agarrado ao alaúde eu durmo comigo/ eu durmo comigo debaixo da noite estrelada/ eu durmo comigo enquanto os outros fazem aniversário/ eu durmo comigo às vezes de óculos/ mesmo no escuro sei que estou dormindo comigo/ e quem quiser dormir comigo vai ter que dormir do lado.
Alice Sant'anna
Ausência
tenho te escrito com calma
cartas em um caderno azul
arranco da espiral e não posto
por preguiça ou nem morta
tenho medo da espera
durante dias ou semanas um animal horrível
(espécie de raposa) vai me perseguir
por dentro, ou serei eu mesma
(um rato?) a me roer
enquanto a resposta não chega
perco muito tempo tentando
dar nomes aos bichos
que sobem a cortina do quarto.
Lorena Martins
A tempestade
no último degrau
(suspiro)
pro inferno carregue
teus sapatos vermelhos
teu suspeito convite
para dançar
respire
no the end
tudo o que eu digo é
lamento
não há como chover mais
neste dia embriagado
de solidão
sigo atropelável
pedindo suco de laranja
às lágrimas
pro vendedor de guarda-chuvas.
Poema sem-nome
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