Poema sem-nome

Viajo em cores e lençóis de cama
Não me sei sozinha
Deitada sobre o tapete da sala
Os livros apoiados
Na estante
Os discos
Canecas de café
Envelopes vazios
Cartas não enviadas

No meio de tanta coisa
Meu coração com teu nome.

Me liga quando chegar em casa?


(Para se ler ao som de Call me on your way back home – Ryan Adams)

Eu o amei desde o primeiro minuto do primeiro segundo. Apenas soube. Sem mais explicações ou literatura.
Nos beijamos sem nos conhecer, mas depois que o beijo terminou, já éramos velhos conhecidos.
O tempo do mundo sempre foi diferente do nosso tempo. Da primeira vez que nos tocamos tudo era de uma vergonha tão grande que dormi com as costas encostadas no peito dele. Pela noite toda recebi beijo por de trás do pescoço.
Quando nos amamos pela primeira vez já era quase dia. A cama estava desarrumada, meu cabelo cheirava a cigarro e seus olhos estavam embriagados. Em compensação, poucas vezes senti nossos corações batendo tão forte como nesse dia de meia-calça jogada pelo chão e palavras inteiras sussurradas do lado de dentro – eu ainda não tinha voz para dar nome às minhas emoções.
Eu fui embora logo depois. Transbordando pela primeira vez de um amor líquido e quente, um amor de carne e de nome. Na porta, com os cabelos bagunçados, os olhos baixos e tímidos, você me disse depois do abraço, me liga quando chegar em casa, sim, eu disse, te ligo.
Liguei e não falamos nada. Só um cheguei bem, que bom, dorme bem, você também. Demoramos um pouco pra desligar. Alguns segundos. Não faziam a mínima diferença pra qualquer pessoa do mundo, de outro tempo, de outro corpo, de outro líquido, de outro nome. No silêncio descobri que me liga quando chegar em casa era o seu jeito de dizer eu te amo. O meu jeito de responder eu não sei qual é. E é por isso que escrevo. Pra tentar te dizer que sim, eu também, eu muito - eu te amo.

Ensaio sobre o toque

[Um texto que era pra ser parte de um curta que acabou não sendo. Escrito com a "ajuda" de Caio e Cortázar]

Cadê você que não aqui? Onde estaremos nós no meio dessas linhas forçadas e desse gosto de cigarro na boca? O telefone não toca. Apesar de parecer ouvi-lo ressoar em algum canto da casa. Não deve ser você.
Não ouço. Mal consigo segurar a caneta que a agonia me bota na mão.
Respiro confundida, querendo encontrar a minha boca na tua boca, mordendo os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem com um perfume antigo e um grande silêncio.
Fingir que está tudo bem, os olhos borrados, o canto da boca levemente mordido na tentativa de matar a vontade que grita, que arde. Fingir que está tudo bem enquanto o telefone não toca, a vida não gira. Fingir que está tudo bem, o coração a tilintar feito pequenos cristaizinhos pulando no chão.
Odeio amar, não é engraçado? Amanhã tento de novo. Amar só é bom se doer. Desculpe tanta sede, tanta insatisfação. Amanhã, amanhã, recomeço. Te espero. Te Beijo.

O corpo da alma ou por dentro da carne

Me peguei pensando em nossos corpos. Sim, corpos. Suados, nus, a dança bonita de pernas e braços, os pêlos a raspar nas coxas, barriga, rosto.
Te quero tanto. É simples o que digo.
Quando você está dentro de mim, sinto como se peixes errassem nas minhas veias. E nem todos os romances do mundo conseguiriam explicar o meu calor no meio das pernas.
Como explicar o modo com que me penetras em corpo e me atinges com lenta delicadeza o coração? Ao mesmo tempo. Tudo-junto. Música melodiosa: eu-mais-você.
Não consigo achar um jeito melhor de falar de amor a não ser o fazendo tão bem.
Ter você grudado a mim, interligado a mim por um órgão que pulsa, que jorra, que pede e que depois se derrama e adormece ainda dentro de mim é o mais perto que eu já consegui chegar do amor.
O corpo da alma é menos carne e mais coração cada vez mais.

[foto de Cartier Bresson]

(o texto era pra ser maior, mas de repente eu só queria dizer que.)

O amor não morreu

O amor não morreu - apesar de morrer todos os dias. Mas hoje à tarde, perdido por entre livros e verbos em francês, o amor apareceu no arrepiar dos pêlos e nos olhos de alguém que talvez tenha o perdido em alguma mesa de bar.

- Eu vou me casar. - Disse a menina morena ensaiando uma voz meio-séria meio-extasiada.
- Mas é já-já, não é? Então corra senão não dá tempo. - A professora reforçou.
- Dá sim. Eu e ele guardamos dinheiro pra isso desde os três meses de namoro, porque já sabíamos que iríamos ficar pra sempre juntos.

(silêncio)

Isso mesmo: um silêncio doce e profundo.
Dos olhos da professora, que vira a mexe solta algumas frases cheias de um grito típico de quem não sente a mínima necessidade de se dividir em alguém, saíram algumas pequenas lágrimas que não chegaram a cair no rosto, mas encheram o olhar de uma esperança bonita, uma não-morte desse amor que insistem em matar todo dia.
O amor - essa palavra. Troço complicado, que bate e afaga ao mesmo tempo. Eu digo que depois dessa tarde o sinto melhor aqui ao lado, repousado leve sobre o canto esquerdo do coração. E vou dormir acreditando que a lágrima que quase caiu dos olhos da professora foi o sinal de que em algum canto dela ele ainda pulsa e não morre nunca por nunca deixar de viver em lugares que às vezes a gente ainda desconhece.

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