Escuta, ainda não acabou

Escuta aqui, presta atenção só mais uma vez. Só por um segundo. Lembra? Eu te disse aquilo aquela noite mas de repente aquilo não faz mais sentido do lado de dentro. Você me apertava com força e eu tive medo dos seus olhos. Eu sabia que você não iria me bater ou acordar o prédio todo com os gritos de uma briga, mas eu tive um medo tão grande! Um medo do olhar. O amor acaba quando você não consegue mais se ver dentro do olhar do outro. E eu me via ainda, eu estava lá, quieta e assustada. E tive medo por isso. Medo dos seus olhos tão verdes e tão profundos, esses olhos que eu sempre me perco quando quero me encontrar nas estradas em que você insiste em desenhar com seus dedos queimados de cigarro. Você não lembra. O relógio rodou por aí. Por aqui o tempo ainda congela feito um relógio de cordas quebradas e eu já não posso mais ouvir o badalar do teu nome. Enxergo teu corpo no corpo de todos os cem homens de todos os cem corredores. Eu quero tanto te dizer, meu amor.
Vê que ainda te chamo de meu amor. Não posso mais.
Por favor, só me ouça pela última vez. Não quero tua boca, muito menos sentir sem corpo rijo contra minhas coxas já quentes. Não quero mais, você entendeu?
Quero tanto.
Não me segure nunca mais pelo braço daquele jeito. Eu não quero sair dos seus olhos, eu não quero me perder dos teus pêlos.
Não deixe, simplesmente não deixe.
Arranque o cigarro das mãos, cale a boca do Dylan, deixe o café esfriando, mas venha.
Eu te espero tanto, meu amor.
Te espero fria, burra. Me visto da mulher mais burra do mundo pra você. É isso que você quer? Um foda bem dada, uma carta de amor? Eu dou, eu faço. Eu gemo se você preferir, apesar de eu não gostar. Imito Vinicius, fodo com outra, me toco pra você ver.
Você me ouve?
O amor é a burrice que o coração inventa quando sente que está preparado pra sofrer, você me disse uma vez. E quem sofre agora, meu amor?
-------------------------------------------------------------------------------------------------------------
A propósito, você parou de fumar? Sim, minha mãe vai bem, meu irmão também. Perguntou de você ontem. Eu te amo. Prestatenção nisso: Eu te amo. Não desvia o olhar. Não desvia a porra do olhar.
Me olha. O que você quer que eu faça? Eu grito. É isso que você quer que eu faça? Conte pra todo mundo que eu sou mais uma dessas garotinhas burras que se apaixonam, se casam e depois passam a vida toda apanhando na cara de marido filho-de-uma-puta e. Gostam. Eu não quero ser essa mulher. Eu sei, eu sei que você nunca me bateu. Mas é que. É como se fosse, entende? Você me machucou aqui. Tá vendo? Bem aqui.
Apaga essa merda de cigarro. Eu não tenho nenhum cd do Dylan aqui.
Me olha.
Me toca.
Me ame, meu amor.
Espera, não vai embora ainda. Eu vou passar o café. Tem capuccino também. Comprei aquele que você gosta. Espera mais um pouco. É que eu não consigo dizer.
-------------------------------------------------------------------------------------------------------------
 Lembra aquele dia em que eu disse que eu não te amava mais?
Eu menti. 

Das palavras cruas

(Para se ler ao som do silêncio)

Isso era pra ser um conto. Eu, egocêntrica que sou, personagem principal. Acontece que não sei brincar de me ficcionar. Sou pura autobiografia. 
Tive tanta saudade da palavra. Assim: de repente. Uma saudade do verso, da prosa, do cansaço que bate no corpo depois de terminar uma história cheia de quereres.

Tenho vontade de me reescrever.
Do alto dos meus 20 anos, de repente tive medo de me perder de mim. Me errar por dentro como se erra o desfecho de um conto (os finais sempre nascem por si só). Eu me nasço. Mas tenho morrido tanto.
Quero escrever, porra.
E a vida não deixa. O tempo gira rápido, dia, tarde, noite. Acabou. Cama, sono. Um livro caído no peito e nenhum verso no caderno-rosa-ainda-vazio. 
Eu quero escrever e sinto uma angústia gigante por não conseguir. Por não ter esse tempo de respiro - de suspiro. Minha angústia é palavra enganchada do lado de dentro, presa nas amígdalas, perdida entre os cabelos. 
Escrever é uma grande maldição. Às vezes me pego pensando que o fato de eu ser assim - tão desassossegada, tão presa dentro de uma música do Radiohead - tem a palavra como principal culpada. A palavra lida, que percorre todos os órgãos e cai de leve no coração em forma de pulsão. Pulsão de escrita.
Eu quero escrever. 
Escrever que tenho pena dos casais que dividem mesas de restaurantes sem trocar nenhuma palavra, dos homens que nunca sentirão o gosto doce do amor-sexo bem feito...
Eu quero escrever sobre um monte de coisas a toda hora. Mas só consigo ficar num mesmo e maldito assunto. Meu eu em você. Ou como todos os romances do mundo ficam sem graça e todas as palavras do mundo não fazem sentido quando tudo o que tenho é seu corpo colado ao meu e tua palavra crua colada à minha desordem. O resto se resume apenas em livros na estante e roupas jogadas em volta da cama. 
Não quero saber da palavra que não seja sentimento-carne. 

Seu beijo, seu texto, seu queixo, seu pêlo, sua coxa

(Para se ler ao som de Caetano Veloso – Deusa Urbana)

Não consigo mais escrever. E de repente começou a tocar Caetano. Já gritamos tanto com Caetano cantando ao fundo. E de repente comecei a pensar em nós. Somos tão próximos o tempo todo que eu sempre preciso da distância do seu corpo pra conseguir perceber as coisas com mais clareza. Não que eu não as perceba quando estamos colados, mas é que o mundo todo parece conspirar de um jeito bonito quando estamos perto. Nem penso. Não quero saber, simplesmente. Foda-se o meu curso de merda, foda-se o meu vazio de não conseguir tempo pra ler os livros que quero ler. Que se foda tudo bem grande enquanto você me fode em noites que correm com a lua nos invejando pela janela. Virei uma acomodada. E nunca me pareceu tão bonito a acomodação que o amor me causa. Colo de mãe, toalha depois de sair do mar.
Morreria ouvindo Caetano agora.
E Deus sabe o quanto queria te chamar pra dançar no meio da sua casa minúscula agora. E você me diria que não sabe dançar e eu te diria que eu também não sei e dançaríamos juntos e riríamos juntos do nosso mal jeito pro mundo, do nosso modo de esbarrar em cantos e de acordar falando sem parar no meio da noite.
Eu quase choro falando de você e sou tão boba quanto qualquer menininha de 14 anos que acha que acabou de descobrir o que é o amor. É que não consigo parar de pensar. Por mais que eu tente, eu não consigo.
Umbigo que sou, também não paro de pensar no modo como você precisa ir pra longe pra eu conseguir dizer o que eu sempre quero dizer mas que acabo não dizendo porque me enrolar no seu corpo já sem roupa e ficar cantando as músicas dos encartes de CD da sua casa às 2 horas da manhã são muito mais interessantes que a minha sede de literatura.
Eu quero gritar pro mundo bem em um daqueles dias em que eu acordo surtada, falando quinhentos palavrões por segundo, que porracaralhoimenso como eu te amo, meu menino.
E paro por aqui, sem a necessidade de trabalhar em um bom final – eu que sou tão viciada em bons finais – porque não quero te fazer minha literatura. Quero me fazer literatura e me entregar crua, muda e tua – beijo, texto, queixo, pêlo, coxa. 

Cadela abandonada ou como abrir as cortinas da retina


Tenho alma de cadela abandonada. Não, não dessa forma. Ao contrário do que você pode imaginar, não há nenhuma conotação sexual nessa minha afirmação. Repito novamente para tentar deixar as palavras mais claras: tenho alma de cadela abandonada.
Não posso ver cachorro na rua. Ontem mesmo estava saindo da garagem do meu prédio quando olhei pro meio fio e vi um cachorro com um olhar tão triste que não tive alternativa a não ser parar o carro e ficar conversando com ele com uma baixeza de mentalidade que o humano só consegue alcançar quando se dirige a bebês ou a cachorros. Eu era um ser humano com a cabeça para fora do vidro do carro e com um cachorro por trás do olhar. Por trás do olhar é o mais fundo que se pode chegar antes de atingir o coração.
Pouca gente consegue ultrapassar o olhar. Pede-se delicadeza e presença de espírito para saber o momento exato em que se afasta as cortinas da retina. O cachorro estava lá, deitado por trás dos meus olhos, colado à minha íris.
O fato é que perdi a noção do tempo. Fiquei lá com o cachorro a me olhar pelos meus próprios olhos, falando, é claro, com a voz débil mental típica da situação. A voz débil mental é importantíssima, é como a trilha sonora que toca enquanto as cortinas da retina são abertas.
Eu adoro cachorros. E gatos também. Os gatos têm o meu respeito porque são seres digníssimos. Os egípcios tinham razão, gatos são, com toda certeza do mundo, superiores a nós. E se engana quem diz que são bichos egoístas. Muito pelo contrário, são eles a própria reencarnação do altruísmo: quando os gatos sentem que estão para morrer, eles vão pra longe do dono. Geralmente o pensamento pára por aí. Mas nada me tira da cabeça o motivo: eles vão pra longe do dono porque não querem causar sofrimento alheio. Morrem sozinhos, agonizando depois de atropelamentos e partos mal sucedidos.
Cachorros não. Quando eles estão morrendo, chegam mais pra perto, aninham-se no colo, pedem carinho que nunca gostaram antes. Até o mais frio dos poodles neurastênicos, o mais violento dos pitt bulls, torna-se um carente profissional nessas horas mais difíceis. Cachorros são seres egoístas. Lindamente egoístas. Precisam do amor concreto. Não saberiam fazer poesia se pudessem.
Pois estava dizendo que não posso ver cachorro na rua. Não posso. E não posso ver gato também. Mas gato corre, se esconde no bueiro, alimenta seus filhotes. Cachorro é resignado. Fica deitado com folhas grudadas nos pêlos, aceitando a condição e não saindo do lugar em que foi deixado, que é pro dono poder achar se resolver tê-lo de volta. Cachorros sabem alimentar o doce das ilusões.
Tenho alma de cadela abandonada. Pego todos que vejo pela frente e, se não puder pegar, espalho fotos, grito pro mundo, abro as cortinas da retina das outras pessoas com a mão leve da palavra. Tento salvar os cachorros da calçada, da ração cheia de formigas, da comida rejeitada, da água quente no final da tarde. Tento salvá-los do mundo, da realidade crua, das pálpebras fechadas. E faço tudo isso por um único motivo, porque os salvando eu me salvo também. Porque não tenho só alma, tenho coração de cadela abandonada.

Tão-perto


-Quando a noite chegar cedo e a neve cobrir as ruas, ficarei o dia inteiro na cama pensando em dormir com você.
-Quando estiver muito quente, me dará uma moleza de balançar devagarinho na rede pensando em dormir com você.
-Vou te escrever carta e não te mandar.
-Vou tentar recompor teu rosto sem conseguir.
-Vou ver Júpiter e me lembrar de você.
-Vou ver Saturno e me lembrar de você.
-Daqui a vinte anos voltarão a se encontrar.
-O tempo não existe.
-O tempo existe, sim, e devora.
-Vou procurar teu cheiro no corpo de outra mulher. Sem encontrar, porque terei esquecido. Alfazema?
-Alecrim. Quando eu olhar a noite enorme do Equador, pensarei se tudo isso foi um encontro ou uma despedida.
-E que uma palavra ou um gesto, seu ou meu, seria suficiente para modificar nossos roteiros.

(Caio Fernando Abreu - O dia em que júpiter encontro saturno, em Morangos Mofados)
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...