Sobre o fim das coisas

Meu amor termina na ausência do gesto
na confusão das coxas
no olhar perdido.

Meu amor termina 

às 5 da tarde
talvez de um domingo
em que você não apareceu.

Meu amor termina

no livro esquecido
no cigarro como desculpa 
na vontade de tatear seu corpo
no encontro com o silêncio.

Meu amor termina

na avenida movimentada
no sinal fechado
na espera pelo seu nome 
que não vem.

Meu amor termina porque já não estava mais aqui.


(São Paulo - 03/03/13)

As vantagens de ser invisível

p. 49
Fuçando no skoob, vi um comentário de uma leitora dizendo que esse é o melhor livro que já leu na vida porque foi o que mais mexeu com ela e a fez querer ser uma pessoa melhor.
O livro em questão é “As vantagens de ser invisível”, de Stephen Chbosky, e o que a leitora falou realmente faz muito sentido.
Quem não sabe bem do que se trata pode julgar a história meio bobinha. Inclusive conheço quem deixou de comprar um exemplar por estar na estante de “literatura infanto-juvenil” - como se esse tipo de literatura fosse menor ou soasse rasa para aqueles que já passaram dos 20. Tenho 23 e leio Lygia Bojunga, ou seja. Até aí, bem ok pra mim. O fato é que peguei pra ler esse livro de uma forma meio vou-ler-algo-mais-leve e fui realmente pega de surpresa pela sensibilidade, estilo e opção do autor por construir a narrativa em cima das cartas do protagonista para alguém que a gente não faz a mínima ideia de quem seja - e que talvez possa ser visto como o próprio leitor. Acertei na parte do algo-mais-leve, mas também tem muita coisa de absurdamente pesada nessa narrativa.
A história gira em torno de Charlie, um adolescente cheio de inseguranças e questionamentos. Ele está indo para o ensino médio, seu único amigo se matou e ele parece não ser muito bom com amizades - fala pouco e pensa muito. O fato é que Charlie acaba cruzando com Patrick e Sam, dois veteranos, e a relação dos três vai se desdobrando e construindo coisas novas pra Charlie.
Até aí a história é clichê, mas de repente o autor nos surpreende tocando em tabus e assuntos tensos de uma forma leve e sutil sem deixar de ser dolorido quando deve ser. Assuntos como o suicídio antes mencionado, homossexualidade, preconceito, drogas, aborto, violência contra mulher e pedofilia estão presentes no livro. E essas coisas não estão simplesmente soltas na narrativa, mas são construídas de uma forma a soar um pouco como “lição”,  não no sentido moralizante, mas talvez no sentido de abrir os olhos do leitor e fazer com que ele mesmo deseje ser uma pessoa melhor - como quis a leitora que cito no começo do texto. Ou talvez ainda no sentido de conseguir deixar as coisas ruins pra trás e saber lidar com isso. Esse ponto me fez pensar que esse é realmente um ótimo livro para ser discutido em sala de aula com alunos da mesma faixa etária dos personagens - final do ensino fundamental e começo do ensino médio. Quem sabe um dia...
Achei realmente bom porque já tive 15 anos e também não me sentia parte de nada. Porque tenho 23 e às vezes ainda me sinto da mesma forma. Porque esse livro diz muito mais do que está escrito. Porque me fez lembrar de coisas, de livros e de músicas. E provavelmente também vai te fazer lembrar de coisas, de livros e de músicas. E de como você costumava ser quando não se sentia parte de nada. Ou de como pertencer a algo pode ser bom e triste ao mesmo tempo. Ou de como existem Patrick’s e Sam’s na vida de todo mundo. Ou de como é quando eu me sinto infinita.

p. 221
Caso alguma coisa tenha te escapado desse texto é porque você ainda não leu o livro e ainda não sabe do que eu estou falando. E eu quero que você saiba do que eu estou falando. 
Se ainda não leu o livro, leia. O filme também é muito bom e bem fiel ao livro (o diretor do filme é o autor do livro, ou seja).

Sem saber onde pôr as mãos

Acabei de ler A primeira pessoa, da elogiadíssima Ali Smith. O fato de ser quase 5 horas da tarde de um domingo que insiste em pingar é a explicação por não escrever muita coisa sobre esse livro. 
Por muita expectativa ou momento errado, não gostei. Apesar disso, o último conto, que dá título ao livro, foi o único que conseguiu realmente me causar algo - ou dizer o que eu preciso/quero ouvir agora. Enfim. Tá aqui:

"Você não é a primeira pessoa com quem eu já fui tantas vezes pra cama no mesmo dia,  eu digo.
Espero que não, você diz.
Você não é a primeira pessoa que me renovou, eu digo.
E não serei a última, você diz.
Você não é a primeira pessoa que pensou que podia ser meu salvador ou minha salvadora, eu digo.
Eu é que nunca ia ter esse tipo de presunção, você diz.
Você não é a primeira pessoa que espirrou seja lá que suco de amor que você espirrou nos meus olhos pra eu ver as coisas de um jeito tão diferente, eu digo.
Ãh? você diz.
Aí você faz a cara inocente que faz quando está fingindo que não entende.
Você não é a primeira pessoa com quem e já tive conversas boas que nem essa, eu digo.
Eu sei, você diz. Já passei por tudo isso, e tal. Você se sente no auge da experiência.
Valeu mesmo, eu digo. E você não vai ser a primeira pessoa que me deixou por causa de outra pessoa ou de outra coisa.
Bom, mas se tudo der certo isso ainda vai demorar um tanto, você diz.
E você não é a primeira pessoa que, que, ãh, que -, eu digo.
Que te deixa sem saber onde pôr as mãos? você diz. Bom. Você não é a primeira pessoa que já sofreu por amor. Você não é a primeira pessoa que bateu na minha porta. Você não é a primeira pessoa por quem eu arrisquei um braço. Você não é a primeira pessoa que eu tentei impressionar com minha brilhante performance de quem finge que não se impressiona com nada. Você não é a primeira pessoa que eu faço rir. Você não é a primeira pessoa e ponto final. Mas você é a única pessoa agora. Eu sou a única pessoa agora. Nós somos as únicas pessoas agora. Isso basta, né?" 
(p. 143-144)

Sobre a cama vazia e o andar dos dias

Amores não se esforçam. ( Fernanda Young em O pau, p. 30)

Acostumei tanto com a sua falta que ando aceitando como natural o vazio na cama e no coração. O lençol continua no lugar, o travesseiro repousa tranquilo sob o rosto. O andar dos dias é calmo. Quando você não está aqui, tenho toda a liberdade em escolher qual filme quero assistir - o que é ótimo, já que você tem uma mania insuportável de querer ditar quais filmes iremos ver juntos. Você escolhe sempre aqueles a que já assistiu três vezes, mas quer muito que eu também assista - mesmo que eu não o queira. Além disso, você fica velando minha atenção pra que eu não tente nem por um minuto cair naquele sono que costuma chegar loucamente quando assisto a um filme com você.  E é engraçado, porque eu nunca durmo quando assisto a um filme sozinha. Com você, os primeiros 5 minutos são um convite ao recostar da minha cabeça sobre seus ombros. Nos próximos 10 minutos eu já dormi.
Ando ficando bastante acordada. Leio livros dos quais pouco tenho gostado, passeio com o cachorro, assisto programas de televisão dos quais você não gosta.
Como eu dizia, está tudo bem comigo e com o andar dos dias. Continuo sem concentração e teimando em ignorar as coisas que tenho que fazer. Ainda não aprendi a controlar os gastos, ando mais viciada do que nunca em caderninhos de anotação, coloco o despertador para tocar cedo mesmo sabendo que vou desligá-lo assim que começar a apitar. Pensei agora que é isso que tenho feito nos últimos anos: desligando o despertador mesmo sabendo que tenho que acordar. Ou que devo acordar, não importa. Minha garganta ainda dói, a família vai mal, como sempre. No criado-mudo ainda tem uma foto nossa, sim. 
Você me procura, eu recuo. Eu te procuro, você recua.
A quantas conversas francas resiste um relacionamento? Não era essa a pergunta?
A quantas qualquer-coisa resiste um relacionamento?
Então repito: está tudo bem comigo, com a falta, com o meu desejo de ir embora, com a vontade no meio das pernas, com o medo de não ser o que eu quero ser, com o arrepio na boca do estômago, com a saudade que ainda existe apesar de tanto tempo. Tempo, esse inimigo de cordas e ponteiros. 
Em que momento as coisas se perderam?
Mas ainda existe Nina Simone no vinil, o cigarro com gosto mentolado que você detesta mas compra porque eu gosto, o sexo que vem pra atestar que ainda há algo vivo no meio de tanta coisa que cala. Há ainda algo vivo no meio de tanta coisa que cala? Não importa. Está tudo bem, digo. E quase acredito. 

O amor acaba?


Uma das crônicas mais bonitas da vida: 

O amor acaba - Paulo Mendes Campos

O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova Iorque; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.



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